(FreePik) Era uma manhã como outra qualquer. O sol nasceu exagerado, empurrando o horizonte com impaciência. O vento, cansado de tanto calor, resolveu tirar folga. As nuvens, rarefeitas, vagavam como véus desgastados, e o chão exibia os restos de uma poda recente: galhos cortados, folhas queimadas e um ninho esquecido que o trator não viu. Um fiapo de pena ainda tentava voar, como se não aceitasse o fim. Você talvez tenha passado por uma cena assim, mas não reparou. Estava com pressa, o celular vibrava, o dia já começava atrasado. Talvez tenha pensado que aquelas árvores precisavam mesmo ser podadas. Talvez nem tenha visto o ninho. Afinal, há tanto a resolver que não sobra tempo para perceber o que se perde em silêncio. Mas sigamos tranquilos. Vamos acreditar que tudo está bem. Que não existe mudança climática. Que o calor que rasga outubro é apenas entusiasmo solar. Que os rios não secaram, só foram descansar. Que os oceanos, generosos, se expandem para abraçar mais continentes. Vamos acreditar que os glaciares não derretem, apenas se emocionam. Que as florestas não queimam, brilham de amor. Que o ar pesado é perfume industrial, fragrância de progresso. E que o barulho das serras é a música da prosperidade. Enquanto isso, os continentes continuam seu balé geológico, movendo-se lentos e serenos. Nós, impacientes, aceleramos séculos em poucas décadas, queimando o tempo como se fosse combustível. Os cientistas seguem medindo a febre da Terra, traduzindo o grito do planeta em gráficos que ninguém quer ler. São vistos como alarmistas, esses cronistas do incômodo, acusados de estragar a leveza das manhãs com notícias de derretimento e desmatamento. Finjamos, então, que o tempo não mudou. Que as secas são bons negócios, as enchentes apenas imprevistos de verão, e as ondas de calor uma vitalidade tropical que combina com o bronzeado. E se, cansados de não agir, pedirmos à tecnologia que aja por nós, acreditaremos que a Inteligência Artificial pode enfim nos libertar, resolvendo o que não temos tempo de enfrentar. Ela plantará árvores, corrigirá o clima, salvará os oceanos, desde que a versão que faz tudo isso venha com assinatura premium. E no fundo, qual é o problema? Daqui a cem anos nada disso nos atingirá. Nem estaremos aqui para ver o resultado. O que parece egoísmo talvez seja apenas acaso. Afinal, para acabar, basta existir. E quando o último continente se mover para longe, quando o Atlântico se erguer como um muro líquido e o ar se tornar artigo de luxo, ainda poderemos dizer, com calma e voz confiante, que o clima não mudou. Nós apenas passamos. Como quem corta um galho e esquece o ninho. *Alessandro Lopes. Arquiteto e urbanista, mestre em Direito Ambiental e pesquisador em Cidades Criativas e Inteligentes