[[legacy_image_306459]] A pergunta vez ou outra surge ante as condições que regem os passos do magistério neste nosso querido Brasil de contrastes absurdos! É admirável (Deus nos livre se assim não fosse) que alguém ainda escolha esta carreira que sempre mereceu o título de ser uma das mais belas e dignas profissões, embora injustiçada em nossos dias. O mundo deve tudo o que tem de bom intrinsecamente à ação do professor. Daí a sua grande responsabilidade. A partir do instante em que assume o dever de educar um jovem aluno, o mestre é dono daquele destino, ainda que por tempo breve. E que precioso tempo é esse, apesar de escasso, uma vez que tais ensinamentos podem durar a vida inteira, caso devidamente instalados na mente e no coração de quem os recebe. Nesse tempo breve, ao professor (e aos demais que o sucedem) é facultado fincar as bases seguras do edifício humano, desde os alicerces, tornando o aluno apto para abrir portas e adentrar o futuro com confiança. Quem, a priori, monitora as chaves dessas portas é a dedicação, é o empenho do professor na execução fiel do seu dever. Cabe a ele entrega-la em mãos do aluno que ao chegar sequer imagina o valor daquela chave e nem tampouco o panorama que se estenderá diante dos seus olhos, após a porta aberta. A amplitude dos objetivos, as dificuldades para atingi-los e os sacrifícios que a sagrada missão do magistério exige é que fazem dela uma nobilíssima área. Nobre dentre as mais nobres! Motivo de orgulho para quem, por vocação a abraça com a dignidade com que deve ser abraçada, sublimado, aos primeiros passos, pela antevisão dos sacrifícios e das injustiças que o acompanharão em sua árdua jornada - nem sempre recompensada à altura do que merece. No dia 15 de outubro, comemorou-se o Dia do Professor. O que se segue ajuda a ressaltar a magnanimidade desse memorável dia. Relato um fato fidedigno e extraordinário que há tempos ouvi de amigos e jamais esqueci. Repasso-o, ciente de que o acontecido espelha perfeitamente a alma do professor cuja missão dignifica a sua própria vida. O caso aconteceu, há algum tempo, na Faculdade de Medicina de Santos. Assunto: cardiologia. O mestre explicava a ação daquela preciosa "bomba" indispensável à vida. Bomba que, desativada, mata! E foi quando, surpreso, sentiu que os sintomas de um infarto lhe batiam à porta. A dor ardida a lhe espremer o coração, o ar em fuga, a angustiante pressão nos maxilares... Diagnóstico indiscutível. O preciosismo inusitado daquele instante didático, entretanto, superou o medo que a realidade lhe impunha. E por decisão daquele homem duplamente qualificado, calou-se o alerta do médico em respeito à decisão impulsiva do mestre. Antes de apelar para qualquer socorro e em desprezo aos riscos, a última aula daquele professor facultou aos alunos seguir - via estetoscópio - o decurso minucioso e progressivo de um infarto do miocárdio checado in loco, no seu próprio peito. Para desconsolo de tantos, o valoroso médico infartado, ou seja, o inesquecível professor doutor Milton Estanislau do Amaral. Imprudência? Empolgação? A maioria pode dizer que sim. Mas para que tal diagnóstico não empane o brilho de tão heroica atitude, urge dar resposta à pergunta que encabeça este artigo: fim do professor? Absolutamente, não. Professor até o fim!