[[legacy_image_290071]] "Filhos... Filhos?/Melhor não tê-los! Mas se não os temos/Como sabê-los?" Assim começa o poema de Vinicius de Moraes que consagra uma questão de nossos dias, não pelo número deles, e sim por tê-los ou não, drasticamente assim posto. O Japão tem empenhado recursos bilionários num programa de incentivo a casais para tê-los, a Coreia do Sul já vê escolas e creches esvaziadas e a China, que baniu a política do filho único, tenta reverter a decisão dos seus habitantes por não terem agora nenhum. Na África, as projeções de crescimento demográfico foram todas revistas para baixo e na Europa, puxada pela Itália envelhecida, há um desespero por mão de obra renovada e preocupação com déficits previdenciários. Ainda em solo europeu, o interessante é que na Suécia há um pequeno aumento demográfico, que se dá em função de um fator virtuoso de seu alto grau de desenvolvimento: a partilha familiar justa de funções com a atribuição equitativa de deveres do casal. Quando dois criam com mesma responsabilidade, as coisas mudam de figura. A partida da imensa atriz Aracy Balabanian reacendeu o debate num país que ainda romantiza a maternidade até com certo preconceito contra quem não procria. Aracy, numa sinceridade que desconcerta certo atraso comportamental, revelava ter preterido a gravidez em nome da carreira com a qual tinha um compromisso visceral, além de não ter encontrado um parceiro ideal para pôr no mundo um filho seu. Nenhum egoísmo, apenas a lucidez de quem escolhe seus caminhos e não idealiza uma atribuição biológica como imperativo categórico. O antinatalismo é uma prerrogativa pessoal que cresce como conceito existencial. Não sugere proselitismo, não tenta convencer, apenas exige respeito à decisão. Surge a geração no mother, que não associa maternidade diretamente à felicidade. A ansiedade ambiental, os efeitos climáticos extremos, as pandemias derivadas da degradação e a falência do biomas naturais e urbanos são alguns dos motivos que reforçam a decisão de apostar em outras demandas pessoais. Outra perspectiva é a da ainda persistente mazela subdesenvolvida da gravidez na adolescência. Vocês devem ter dimensão dos prejuízos físicos, emocionais e econômicos para as legiões de mães de filhos em nada planejados que inviabilizam milhões de seres para a vida num país desigual, com falta de orientação contraceptiva, respeito ao destino das mulheres e mínima abordagem da responsabilidade reprodutiva. Entre héteros e homos, no Oriente e Ocidente, jovens millennials e da ascendente geração Z se perguntam o que são os conceitos de sucesso e qualidade de vida e por qual motivo ter carro, patrimônio e filhos. Falo por mim, antevendo tendências, sem militância nos meus paradigmas, até porque os que vêm já sentem de onde o vento bate. Lá se vão milênios que Platão escreveu: “Não deverão gerar filhos quem não quer dar-se ao trabalho de criá-los e educá-los”. Criar e educar, dois estágios intransferíveis dessa responsabilidade que admiro nos que a ousam conscientemente: ter filhos. É inevitável repetir a célebre frase de Machado de Assis: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”. A miséria agora posta no coletivo, mestre Machado: que mundo estamos legando aos que virão diante da Amazônia que sangra e das calotas que derretem?