[[legacy_image_275313]] Durante o tempo em que foi útil ao sistema, o ex-procurador da República Deltan Dallagnol era considerado herói nacional. Mas o mundo gira e, não raras vezes, traz reveses. Agora, Dallagnol é um incurável fascista, para alguns; um incorrigível comunista, para outros tantos. O ex-procurador, eleito deputado federal em 2022, teve seu mandato cassado pela “Divisão de Pré-crimes” do Tribunal Superior Eleitoral, o TSE (para entender melhor como funciona essa divisão, sugiro assistir ao filme Minority Report, ambientado no ano de 2054. Na ficção, por meio de tecnologia e de algumas mentes sensitivas, é possível prever crimes que ainda ocorrerão e prender seus autores antes de provocarem qualquer mal). Em Pindorama, não precisamos de tecnologia, nem sequer vivenciar o tédio de esperar pelo futuro. Aqui, nas mentes privilegiadas do TSE, o futuro já chegou. Distante do brilhante enredo daquele filme de Steven Spielberg, a decisão do TSE superou a ficção (na medida em que possui devastadores efeitos concretos no mundo real), mas com o equivalente reputacional de uma pornochanchada. Em desfecho a essa pornochanchada, há poucos dias, a Câmara dos Deputados, numa postura de tanatose, ratificou a cassação de Dallagnol. Peço ao caro leitor que releve o fato de fugir momentaneamente do assunto, mas o que aconteceu com aquele senador surpreendido pela Polícia Federal dentro de casa com dinheiro na cueca? Parece que nada, afinal seu nome não figurava na lista dos “inimigos da democracia” (vivemos tempos em que todos os crimes estão perdoados – não por Deus, mas pelos ungidos do Supremo Tribunal Federal –, exceto o abominável crime de atentar contra a sagrada democracia, ainda que a definição de democracia seja constantemente moldada aos interesses da ocasião). Quanto a Dallagnol, esquerda, direita e centro (ou melhor, Centrão, em demonstração de intimidade com quem manda no País) adotaram a máxima do “inimigo do meu inimigo é meu amigo”. Em nossa “fase evolutiva” de descondenações, é absolutamente “legítimo” caçar (e cassar) o grupo dos algozes, responsável pelas condenações judiciais ora desfeitas. E Dallagnol, que não é mais útil ao sistema, está nesse grupo. Aprimoramos a arte mambembe de transformar a realidade apenas escolhendo palavras. O resto do mundo está um passo atrás. “Realidade alternativa” ou “pós-verdade” são expressões incapazes de definir nossa grandeza. O ex-senador americano Daniel Patrick Moynihan chegou a declarar que “todo mundo tem direito à opinião própria, mas não a fatos próprios”. O político americano não conhecia a classe política pindoramense (que abarca, necessariamente, os ministros dos tribunais superiores do País, cuja preocupação com o Direito, há muito, passou a ser secundária). E, especialmente, nossa classe política não tem a menor noção das palavras do falecido ex-senador americano. Espantoso é constatar que, com a cassação de Dallagnol, superamos nossa exclusiva habilidade de reescrever o passado (aliás, ainda há quem duvide que fomos feitos à imagem e semelhança de Deus?). Fomos além: reescrevemos o futuro.