Fernando Pessoa criou heterônimos, todos eles com personalidades e estilos próprios, diferentes do utilizado pelo criador (Reprodução) Quem vai ao bairro do Chiado, na cidade de Lisboa, e encontra no meio da calçada uma figura sentada em frente ao Café A Brasileira não pode deixar de ficar ao lado, nem que seja para tirar uma foto. Pois é, uma imagem aparentemente tão frágil, mas que desperta uma energia por toda a bagagem acumulada de tantas palavras colocadas em seus versos. Ele é Fernando Pessoa, que nasceu bem próximo desse local, o maior poeta da língua portuguesa e que traz junto dele, várias outras vozes, chamadas de heterônimos. Neste 13 de junho, ele completaria 138 anos, mas se considerarmos as personalidades que criou, somariam muito mais centenas de anos. Fernando Pessoa não cabia em si, inventou corpos, pensamentos, vidas inteiras com nomes, sobrenomes e autonomia. Por meio dos heterônimos, conduziu uma profunda reflexão sobre a relação entre verdade, existência e identidade. Pois é - há poetas que escrevem versos, e há poetas que inventam mundos. Quantos de nós não gostaria de ter amigos que nos atendessem às muitas paixões que temos? Ele não queria ser apenas uma estrela, mas uma constelação, que nos deixou nas vozes dos três principais heterônimos - Alberto Caieiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos, cada qual com seu estilo de fazer poesia, de acordo com sua personalidade bem delineada. A sua obra, como um todo, por outro lado, provoca e nos diz que a multiplicidade de vozes reflete a solidão, a observação do cotidiano e a busca incessante de identidade. E, voltando à imagem dele sentado no café, observando o movimento das ruas e transformando tudo em reflexão, penso que Fernando Pessoa nunca morreu - lá está ele, talvez tomando um gole de café, em silêncio e anotando alguma situação no guardanapo de papel e, talvez, sorria ao perceber que o mundo continua tão contraditório quanto no seu tempo. Enquanto corremos atrás de curtidas, metas e urgências, ele nos recordaria a importância de olhar uma árvore sem fotografá-la, de contemplar uma nuvem sem publicá-la, de sentir o instante antes de transformá-lo em notícia. Talvez seja por isso que continua atual. Não porque tenha previsto o futuro, mas porque compreendeu algo permanente no ser humano: a dificuldade de habitar a própria alma. E deixaria na mesa, ao final do dia, uma frase escrita: “viver é ser muitos, mas a sabedoria está em conversar com todos os que moram dentro de nós”. E com esperança de que alguém volte a prestar atenção na poesia escondida nas coisas comuns. *Eunice Tomé. Jornalista e escritora