Fernando Pessoa criou heterônimos, todos eles com personalidades e estilos próprios, diferentes do utilizado pelo criador (Reprodução) Fernando Pessoa é, até hoje, um dos escritores mais vigorosos da Língua Portuguesa. A energia, a tenacidade, a multiplicidade e o lirismo fazem parte da sua excepcional produção literária. Adorado por muitos, odiado por outros, mas respeitado por todos com justa distinção, Pessoa era tão irrequieto que não se contentou em ser um só. Criou heterônimos, todos eles com personalidades e estilos próprios, diferentes do utilizado pelo criador. Alberto Caeiro, o mais puro e simples de todos, está ligado à natureza, um ser bucólico e achegado às sensações mais objetivas. Essa pureza manifestada em Caeiro pode ser observada nos seus versos livres, de linguagem direta e familiar. Ricardo Reis, o mais conhecido dos heterônimos, deu voz aos poemas de índole pagã, inspirados na cultura greco-latina. “Formou-se” em Medicina e expatriou-se, espontaneamente, indo viver no Brasil e, só teria retornado a Portugal, segundo José Saramago, no seu livro O Ano da Morte de Ricardo Reis, para morrer. O terceiro heterônimo, Álvaro de Campos, era considerado o alter ego de Fernando Pessoa e sucedeu a Alexander Search, que surgira ainda na África do Sul onde Pessoa passou a infância e a adolescência. A escrita de Campos possuía a dor e a melancolia que Pessoa provavelmente não quis colocar em seus próprios textos, todos eles repletos de versos febris. Bernardo Soares é considerado semi-heterônimo de Pessoa, com textos a revelar seu caráter enigmático e misterioso, com peculiaridades muito semelhantes às do seu criador. Como poderíamos, a partir de toda essa pluralidade de seres, caracterizar Fernando Pessoa como uma única pessoa se ele mesmo criou “pessoas” com datas e locais de nascimento e morte, profissões, maneiras próprias de escrever e de se posicionar diante dos leitores? Cada heterônimo possuía biografia repleta de acontecimentos e quem se aproximar da obra de Fernando Pessoa poderá facilmente acreditar que todos eles, de fato, existiram, tais as diferenças observadas em cada um. Pessoa não criou apenas pseudônimos para escrever e assinar outro nome como autor. Criou derivados da sua própria personalidade e valia-se deles para colocar no papel situações que não escreveria se usasse o próprio nome. Era um louco? Não se deve acreditar nessa premissa. Quando nos apropriamos da obra de Fernando Pessoa e de seus heterônimos, cada um com diferenciações de estilos tão marcantes, e fazemos uma comparação, perceberemos que há identidades distintas na temática e na maneira de tratar a escrita. Pessoa era plural, um gênio que conseguiu dar vida e estilos bastante diferenciados às “suas criaturas”. Era, portanto, um escritor de muitas facetas. E, por essa extrema versatilidade, é considerado um dos maiores escritores de todos os tempos. Relembramos Fernando Pessoa, nascido em Lisboa, aos 13 de junho de 1888 e falecido 47 anos depois, também em Lisboa. Evocar esse escritor é necessário porque ele soube como poucos enobrecer a literatura e a língua portuguesa. Reverenciemos, pois, Fernando Antônio Nogueira Pessoa, um valioso escritor, exemplo para todos os que desejam dominar a arte da escrita, a qual ele utilizou com exímia perfeição.