( Marcelo Camargo/Agência Brasil ) Logo de saída, você pode perguntar: o que significa, afinal, o termo woke? Para os ativistas dos movimentos sociais, “woke” tornou-se uma cultura e desenvolveu sentido bastante objetivo e claro: busca por diversidade e igualdade social, racial e de gênero. Denuncia e repele, com veemência, preconceitos e discriminação, estando associado a pautas progressistas, como o antirracismo, igualdade de gênero, defesa dos direitos LGBTQIA+. A direita, de modo geral, tem horror ao woke. Considera que seus defensores se consideram moralmente superiores, pretendendo impor, a qualquer preço (como o cancelamento dos opositores) suas ideias, e com isso ameaçar os valores tradicionais. Isso está muito presente nos Estados Unidos. Estudo recente mostra que o trumpismo é sustentado por quatro grupos distintos: os radicais (que não são a maioria, representando 38% do total), a direita relutante, os conservadores anti-woke e republicanos tradicionais. O que os une, entretanto, é a oposição ao movimento woke, visto como ameaça por 75% dos trumpistas. Vivemos tempos de radicalização e intransigência, como todos sabem. Nesse cenário turbulento, a pauta das injustiças contra negros, mulheres e pessoas LGBTQIA+ assume proporções significativas. Casos de injúria racial no esporte, feminicídios, violência contra homossexuais ou transexuais provocam justa indignação e revolta, mobilizando consciências e mentes, a reforçar o clamor popular. Atrevo-me, porém, a dizer que há, por vezes, excessos. Não sou misógino, racista, homofóbico – quem me conhece sabe das minhas posições e ideias. Mas, francamente, não dá para reduzir todos os nossos problemas a esta agenda. Se há uma catástrofe climática ou guerra, as vítimas são sempre – e somente - os negros; as mulheres sofrem discriminação no trabalho (o que é verdade), mas seriam só elas? As exigências, por todos os lados e em todas as áreas, são exclusivamente por inclusão, diversidade, políticas afirmativas. Mais uma vez, ressalte-se: meritórias iniciativas, mas não se pode reduzir a essa agenda as ações em governos e agências governamentais. Nada contra o resgate de desigualdades históricas. Comunidades indígenas e quilombolas, pessoas com deficiências ou com transtornos de desenvolvimento merecem respeito e atenção. Mas esta deve ser uma pauta de toda a sociedade, e não tratada com exclusividade seletiva. Precisamos corrigir injustiças e desigualdades que atingem todos os segmentos: homens, mulheres; pessoas cis e trans; negros, brancos, pardos, amarelos; os que têm deficiências o que não têm (a maioria tem alguma deficiência, ressalte-se). O movimento woke põe o dedo na ferida, sem dúvida. Incomoda, perturba, provoca resistências. Mas não ele não pode ser único nas causas políticas e sociais; seus excessos acabam por voltar-se contra suas lutas. Melhor é engajar todos, sem exceção, nelas. *Alcindo Gonçalves. Engenheiro, cientista político, professor da Universidade Católica de Santos e responsável pela metodologia e RI do IPAT – Instituto de Pesquisas A Tribuna