(Prefeitura de Guarujá) Estou aqui desde 1583 desafiando o longo passar dos séculos, as intempéries e, por vezes, o terrível abandono. Ao completar 400 anos (1583-1983), eu estava abandonada, vilipendiada, assaltada por vândalos, quase perdida na poeira do tempo. Mas, das ruínas, ressurgi como a Fênix, por ação conjunta do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, da Sociedade Visconde de São Leopoldo, da Universidade Católica de Santos e da Prefeitura de Guarujá. Fui adotada, por mais de 30 anos (1983-2014), pela UniSantos e, agora, hospedo o Museu Histórico Fortaleza da Barra, administrado pela Prefeitura de Guarujá. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Minha “certificação de nascimento”, com 12 páginas manuscritas, está no Archivo General de Indias, Sevilha, Espanha, datado de 5 de agosto de 1583, charcas 41, Doc 27, página 6, do almirante Dom Diogo Flórez Valdés ao rei Felipe II de Espanha (Felipe I de Portugal). O almirante Valdés, capitão general das costas do Brasil, no início do longo período de união das coroas ibéricas (1580-1640), percorreu o litoral pouco recortado da América do Sul, com dezesseis naus da invencível armada espanhola, entre setembro de 1582 e maio de 1584. Além da missão principal que lhe foi atribuída por Felipe II - fortificar o Estreito de Magalhães e empossar o seu governador, Pedro Sarmiento de Gamboa -, Valdés aportou nas principais baías do Brasil-colônia para reconhecer, abastecer e indicar simbolicamente o domínio espanhol sobre a colônia de origem portuguesa. Três naus da esquadra espanhola (Almirante, Concepción e Begônia), sob comando de Andrés Aquino, surpreenderam na Baía de Santos dois navios ingleses, sob comando de Edward Fenton, abastecendo para rumar ao Estreito de Magalhães e alcançar o Oceano Pacífico. Houve um combate na tarde de 24 de janeiro de 1583 e, sob o troar dos canhões, o navio Santa Maria de Begônia sofreu avarias e parte do seu armamento e equipamento foram utilizados na minha construção, inicialmente em taipa militar, com desenho de Bautista Antonelli, arquiteto militar da esquadra de Valdés e membro da família construtora de sistemas defensivos na Europa, na África e na América, a serviço de Espanha. Dentre os cerca de 100 marinheiros espanhóis que ficaram em Santos, estava o carpinteiro Bartolomeu Bueno, o Espanhol, pai de Jerônimo e Amador Bueno e avô do bandeirante de mesmo nome e conhecido como Anhanguera. Foi assim que surgi na encosta litorânea deste esporão rochoso, com vista para todas as praias da Baía de Santos e amplo domínio sobre a embocadura do estuário onde hoje está o maior porto da América do Sul. Ganhei, no último quartil do século 19, duas “sentinelas avançadas”: o Forte do Crasto,1734, (hoje Museu de Pesca) e o Fortim do Góes, 1767, (hoje em ruínas). Em 1902 fui substituída pela Fortaleza de Itaipu, voltada para o mar aberto, com vistas e fogos mais profundos. Mesmo assim, no final do século 20, ganhei uma moderna cobertura de aço cos-a-cor, com projeto do arquiteto Lúcio Costa, um dos construtores de Brasília, e o enorme painel Vento Vermelho, de Manabu Mabe, cobrindo toda a parede do antigo altar da Capela de Santo Amaro. Guardo lembranças de muitos séculos, ostento o título de Patrimônio Histórico Nacional (1967) e orgulho-me de estar na Lista Indicativa 2015 enviada à Unesco para concorrer ao título de Patrimônio Mundial. Mas (...), estou com receio de perder a imensa cobertura de aço cos-a-cor que cobre as minhas ruínas, como se fosse um imenso guarda-chuva apoiado apenas nos quatro cantos, pois a ferrugem avança e nunca recebi a manutenção devida. Também não tenho acesso ao painel Vento Vermelho, pois o assoalho da antiga Capela de Santo Amaro está cedendo por ação dos cupins. Assusta-me também, a possível instabilidade de uma enorme pedra assentada sobre uma rocha firme abaixo de uma das minhas guaritas. Um simples “encunhamento” pode resolver esta ameaça desastrosa. Você pode me ajudar? Creio que seria assim, a súplica de um monumento histórico que sobrevive por mais de 450 anos.