(Imagem ilustrativa/FreePik) Era como um sinal de alerta. O som estridente ecoava pela rua Carvalho de Mendonça, no Campo Grande, entre os canais 1 e 2. Um enxame de crianças, entre seis e oito anos, precipitava-se de toda parte. Em direção ao veiculo branco com inscrições vermelhas. Era a ambulância que chegava, com sua sirene aberta, despertando a curiosidade dos moradores. Principalmente dos meninos e meninas. Os menores formavam um corredor improvisado para passagem do médico e do motorista que conduziam a maca. O ambiente era de enorme expectativa. O doente vinha com uma fisionomia dolorida. Sempre havia uma criança mais insinuante e curiosa que interrogava o médico: “Está muito mal? Pode morrer?” Com um gesto irritado e sem dizer nada o profissional afastava o intruso. Acomodava o paciente no chão da ambulância e entrava no veículo com o motorista. Agora a atenção dos pequenos curiosos se voltava para os parentes do enfermo. Uns com fisionomia carregada. Outros chorando. O pequeno intruso não se intimidava com esse momento de dor. “Está à morte?” Um dos parentes enxotava o petulante e gritava: “Reza para ele sarar. Se não de noite ele vem puxar o teu pé!” Meus amigos ardiam de ansiedade pelo retorno da ambulância com o doente. Quando isso acontecia as cenas anteriores se repetiam. Com as mesmas personagens e os mesmos gestos e indagações. Se a volta do doente era relativamente rápida era sinal de que o caso não inspirava cuidados e preocupações especiais. Porém, se a presença dele no hospital se prolongava a ideia de uma doença muito grave ganhava força. Na semana passada, décadas depois, vivi a sensação de ser transportado de maca, em uma ambulância, de um hospital para outro do meu plano de saúde. Em São Paulo. Era madrugada. Portanto, os enormes congestionamentos de trânsito da capital paulista precisariam esperar o amanhecer. As ruas estavam tranquilas. Não havia, portanto, a menor necessidade do motorista criar um grande alarido. Mas ele não resistiu à tentação. O trajeto foi pontilhado por várias irregularidades e abusos. Finalmente chegamos ao segundo hospital. Sãos e salvos. Eu padecia as lancinantes dores provocadas por um cálculo renal grande, que me machucava horrivelmente no seu trajeto frustrado até à bexiga. Lembrei-me dos meus amigos de Santos. Nem eles nem ninguém me aguardava no estacionamento. Até por isso não foi feita a pergunta alarmista dos anos 1940. “Ele está muito mal? Vai morrer?” *Carlos Conde. Jornalista