[[legacy_image_301611]] Recentemente, uma mulher negra me aconselhou a não mais escrever sobre racismo, “na condição de branco de olhos verdes”. Segundo ela, não possuo lugar de fala. Perguntei-lhe se a mesma lógica impediria médicos obstetras de discorrerem sobre procedimentos para um parto com menos sofrimento para a mãe, pelo fato de jamais terem dado à luz. Ou se o secular problema de déficit habitacional no País se explicaria pelo simples fato de não termos um morador de comunidade como ministro da Habitação. Fiquei sem respostas. Presumo, por outro lado, que essa crônica não causará desconforto naquela conselheira (e em pessoas que comungam de sua restritiva opinião), pois a arquitetura do racismo estrutural é atribuída aos brancos (talvez, todos de olhos claros). E racismo reverso é espécie de discriminação que atinge pessoas brancas (tenham ou não olhos claros). Importamos a expressão “racismo estrutural”, e é possível demonstrar sua existência, mas não em terras pindoramenses. O racismo estrutural é aquele promovido pelo Estado. Nele, há leis que discriminam os negros (ou qualquer outro grupo). Como vergonhosos exemplos, podemos citar os Estados Unidos e a África do Sul, países em que as leis tratavam os negros como cidadãos de segunda categoria. Aqui, não há racismo estrutural. Não há leis discriminatórias. Crer em racismo estrutural no País traduz o nível mais libertador da ignorância: quando alguém não sabe que não sabe. E, contrariando alguns, entendo que há, sim, episódios de racismo reverso. Sempre parti da premissa de que as pessoas têm tons de pele variados, mas, por dentro, são absolutamente iguais: mesmos sonhos e aflições (e, para quem crê, uma alma que tem seus tropeços em busca de evolução). Parece-me manifestação de racismo reverso quando uma exposição em São Paulo traz como tema “o pensamento negro”. Há realmente um pensamento negro? Quando li a obra de Machado de Assis, faltou-me cultura suficiente para identificar seus textos como registros do pensamento negro? As sinapses nos cérebros de pessoas negras são, de alguma forma, diferentes das minhas? Devo acreditar nesse tipo de insanidade? Isso não é combustível para a defesa da demoníaca tese de que há raças diferentes, portanto, umas superiores a outras? Aos negacionistas do racismo reverso, serve como prova cabal o fato de uma negra, então assessora especial (ironicamente) do Ministério da Igualdade Racial, referir-se à torcida do São Paulo como “torcida branca... descendente de europeu safado”? A ex-assessora grafou safado em linguagem neutra. Negros podem cultuar suas origens africanas. Segundo a ex-assessora, devo me envergonhar de minha origem europeia branca? Se, estupidamente, propalasse o “pensamento branco”, seria recebido com naturalidade ou tomado por fascista? Não é possível aceitar com naturalidade o que não é natural, e estamos nos esquecendo disso. O racismo, como manifestação da estupidez, pode ser praticado por qualquer pessoa contra qualquer um. E é preciso combatê-lo sob todas as formas. Bem, como diz o escritor Nassim Nicholas Taleb, “se você não corre riscos por sua opinião, você não é nada”.