( Unsplash ) Vazante a maré que levou o mano, primeiro filho homem, orgulho do pai. O segundo, reforço da alegria entre cinco mulheres, deixou-se ir nas águas salgadas do viver para morrer antes do mais velho. Acredito que ele adoçou o oceano misterioso da vida para a chegada do outro, depois de um ano e oito meses. Exatamente o tempo entre o nascimento dos dois. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Coincidência, muitos dirão. À medida que envelheço, acredito que os fatos têm hora certa para acontecer. A partida é inevitável. Para isso nascemos. Para amar e sermos amados. Àqueles que lamentam e dizem que ‘não pedi para nascer’, lembro que por certo ninguém pediu. Ouso completar, ninguém pede, mas estar aqui e agora é uma bênção! Neste rigoroso inverno, percebo sinais da primavera. Entre as folhas secas no chão e nos galhos nus, apontam outras, tímidas. Aguardando as águas brilhantes nos córregos, mares e nas praias, o coração é um rio caudaloso. As fases da lua indicam a alegria dos opostos, dias mais longos ou curtos, tempo de plantar ou de colher. Na infância, montávamos pipas no porão do antigo sobrado, imaginando o céu límpido do novo tempo, quando elas chegariam às alturas. Tudo pode ser melhor quando conseguimos esperar a primavera. O irmão na gélida UTI, carente da alegria e do bem-estar que a saúde proporciona. A cada visita, nossas preces intensas e o entendimento de que tudo passa. Nada permanece. Mas o coração sangra. Inútil tentar podar a tristeza. O que me restava, enfim? Cortar os cabelos, lutando contra o desejo de raspá-los e silenciar a dor. Afinal, já havia perdido pai e mãe, quatro irmãos (três mulheres e um homem). O sofrimento, no entanto, se renova a cada partida. As brincadeiras de infância, viagens, almoços em família e conversas agora são lembranças melancólicas, roubando um pouco do encanto desses momentos imortalizados em nossa mente. Experimento emoções contraditórias relacionadas às fases do luto, que vivencio sem culpa: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Afasto-me das atividades sociais por um tempo, fazendo um esforço para me concentrar em aspectos positivos da vida, voltando a encontrar pessoas e familiares. Dividir a carga do luto com alguém alivia a tensão e a melancolia. Dou asas às boas memórias. Espalho pela casa vasos com suas flores preferidas, caminho na praça que ele apreciava. Sei que não posso deixar de viver: — É imprescindível tomar conta de si mesma — a voz de quem partiu ecoa... Nunca estamos preparados para perder um irmão. É uma dor que arrebenta o peito e dilacera a alma. Porém, o laço de cumplicidade e irmandade é sempre maior que a morte. Acolho a angústia, busco conforto junto à filha, ao marido, aos amigos e deixo a tristeza extravasar. Quem diz que o tempo cura tudo nunca perdeu um irmão. A saudade é eterna, o vazio machuca e a dor se desmancha em lágrimas. O que o coração sente, a morte não pode tirar. Nosso amor sobrevive, meu irmão. As memórias que construímos continuam sendo o sol da minha vida. Ando mais devagar, eu que sempre tive pressa. O luto é um processo em mim. Vejo o buquê de flores secas, enquanto outras vicejam na terra ou na água dos vasos. Sim. Nascemos para morrer. Morremos para renascer, creio. Mas... Como dói! *Regina Alonso. Escritora e integrante da Academia Santista de Letras e da Academia Vicentina de Letras, Artes e Ofícios