[[legacy_image_307504]] Quem é do Litoral de São Paulo não custa uma quadra a esbarrar encantado com uma escultura de Luis Garcia Jorge. Sabe aquela do surfista próximo ao Canal 2, em Santos? A estupenda homenagem feita a Colombo no José Menino? Ou então o maior Quixote fora da Espanha, localizado no Centro Espanhol? E aquela efígie do campeão Zito na Vila Belmiro? Todas já marcam a paisagem santense com o talento desse espanhol de Zamora, que estudou artes em Barcelona e veio para o Brasil faz mais de 60 anos, emprestando o talento da terra de Goya e Dalí aos trópicos. A escultura tem tudo a ver com a poesia ao desbastar excessos, apurar ângulos, harmonizar forma e conteúdo, alcançar o prisma exato da imagem, do conceito e, por que não, do ritmo. Volume e perspectivas ecoam com sua presentificação na paisagem. Luis tem obras espalhadas por todo o Brasil e escolheu nossa região. Ele é um dos últimos testemunhos do apogeu cultural dos anos 1960, convivendo com Geraldo Ferraz, Maurice Lègeard, Guiomar Fagundes, Plínio Marcos e dois parceiros de artes: Juracy Silveira e Argemiro Antunes. Inquieto, com senso de ourives para os detalhes, trata-se de um menino de 93 anos que dirige, procura materiais raros para o ofício e tem projetos para décadas. Não conheço outro escultor mais solicitado por seu esmero e energia. A escultura não é só cérebro, exige cabeça, tronco e membros de quem a ela se dedica. A escultura é uma estiva que constrói arte pública eternizada sob sol, chuva, maresia. Por onde ando, entre Sampa e o cais, vou enumerando o rastro estético, a marca do artesão: da estátua de Victor Civita na Marginal Pinheiros descendo pela Avenida Giusfredo Santini, ali entre Cubatão e Guarujá, com o busto do inesquecível diretor-presidente de A Tribuna, em desenho, mãos, cinzel e modelação do mestre Garcia Jorge. Agora, um novo recanto guarda mais um exemplo do seu estro: uma escultura de Pelé no Píer que leva seu nome desde a semana passada no aconchego calunga, diante do mar infindo do Gonzaguinha. A mesma São Vicente onde Victor Brecheret veraneava foi a cidade escolhida para o ateliê de Luis Garcia. De São Vicente, num espaço mágico, este demiurgo transforma matéria bruta em semblante, músculos, matizes, perenitudes. Atuando em maquetes, painéis, murais, estruturas para o Carnaval santista de longa memória. Desenhista precioso, o escultor é prova viva da dedicação Ibérica à nossa gente. Brasileiríssimo sem perder o sotaque rascante, Luis Garcia Jorge é representante máximo de que ter um propósito na vida rejuvenesce. A motivação contínua é o melhor remédio para o acumulo de idade. E a idade desaparece como elogio ao inusitado porque o talento está aqui vivo e atuante! O poeta aqui convive com o escultor como um contemporâneo de geração porque somos habitantes de um mesmo milagre chamado arte. O astro David Bowie tinha uma frase perfeita a um personagem feito Luis: "Envelhecer é um processo extraordinário em que você se torna a pessoa que sempre deveria ter sido". Objetivos não são predicados de jovens. Ao contrário: quanto mais objetivos e aprendizado, mais esticamos as possibilidades e duração de nossos sonhos. Salve artesão de sonhos, Luis Garcia!