[[legacy_image_302841]] No início de minha carreira policial, prendia criminosos que portavam revólveres. Apreensões de pistolas eram raras. Com o tempo, pistolas ficaram tão frequentes nas mãos de criminosos que, a reboque, os policiais passaram a também utilizá-las. Com fuzis, o mesmo fenômeno: primeiro encontrados nas mãos de traficantes e assaltantes de bancos e de carros-fortes; depois, a polícia ganhou o direito de portá-los (não sem oposição dos defensores da “polícia das rosas”). Nas últimas décadas, com a visão estatal de que criminosos são, sobretudo, vítimas da sociedade, o crime criou musculatura. Hoje – e não é de hoje – temos uma guerra contra o crime organizado, literalmente uma guerra (cresci ouvindo que, se tem focinho de gato, tem pelos de gato, anda como gato, mia como gato e tem jeito de gato, é gato). O crime organizado, além de fuzis, possui outros armamentos pesados utilizados em guerras, como armamento calibre ponto 50, capaz de derrubar aeronaves e já apreendido pela polícia, ao menos em São Paulo e no Rio (no caso do Rio, criminosos chegaram a derrubar um helicóptero, causando a morte de policiais). Tem, ainda, rígida estrutura hierarquizada, cuja punição em caso de insubordinação é a pena de morte – ironicamente, essa pena é prevista para militares em crimes cometidos especificamente em tempos de guerra. Conta com soldados com treinamento tático, para progressão de terreno e operações de assalto (geralmente, realizadas para tomar territórios controlados por facções criminosas inimigas), e parte do lucro obtido com seus negócios ilícitos é destinada à logística ligada à aquisição de armamento e munição. Tem jeito de gato, é gato; tem jeito de guerra, é guerra. A Operação Escudo, realizada pelas forças de segurança de São Paulo para combater o império do crime organizado em municípios do Litoral, foi uma operação de guerra para defender a sociedade. Como em qualquer guerra, na Escudo houve baixas de ambos os lados (infelizmente, ocorreram mortes de policiais – aqueles que se despediram da família para defender você, caro leitor, e não retornaram ao lar). A pressão para que a operação acabasse antes do tempo foi enorme. É possível compreender o raciocínio tosco e linear de alguns: se não há mortes de criminosos (com um fuzil ao lado do corpo), não enxergamos o crime organizado em sua versão mais crua. E, se não enxergamos algo, não há o que ser combatido. As polícias têm realizado operações para o combate ao crime organizado. O que se vê, em regra, é um esforço praticamente isolado das forças de segurança (à exceção de São Paulo, cujo governador – até o momento – respalda as legítimas ações de suas polícias). O Governo Federal acaba de anunciar a destinação de R\$ 900 milhões para o combate ao crime organizado, que vem mostrando sua face mais colérica na Bahia e no Rio. O dinheiro é bem-vindo à causa, mas é preciso mais: utilizá-lo com sabedoria. Desanimo ao saber, pela imprensa, que parte dessa verba será destinada à aquisição de armamento não letal para as polícias. Lembro que, do outro lado da guerra, há soldados com fuzis.