Um amigo de longa data, em nossas muitas conversas, volta e meia recorda pequenos acidentes de infância. Pesquisando jornais antigos na internet, encontrei uma reportagem de 1962 e a transcrevo, omitindo nomes e endereços dos envolvidos. “Às 11 horas de ontem, quando saía do Grupo Escolar Barnabé, situado na Rua São Francisco, o menor de 11 anos, residente em Itapema, aluno daquele estabelecimento de ensino, foi colhido por um bonde que trafegava naquela artéria em direção à praça José Bonifácio. O coletivo de prefixo 4, dirigido pelo motorneiro, arremessou o menor ao solo, ocasionando-lhe pequenas escoriações. Apesar de não merecer cuidados, a vítima foi internada na Santa Casa, onde ficou em observação. O Plantão Policial registrou a ocorrência”. Naquele instante, ele talvez estivesse no mundo da lua, como não raro acontece com meninos. Olhos vagantes, sem destino, presos a imaginações de menino, enquanto os pés seguiam distraídos pela calçada. Nessa desatenção de instante, o bonde surgiu, pesado e inevitável, arrancando-o dos devaneios e devolvendo-o ao chão da realidade. Ah! Aquele guri, provavelmente, nem sonhara que seria um malabarista da escrita. Da alma do menino, nasceu o adolescente carregado de dupla visão; a dos sonhos e a do concreto, a lembrá-lo da fragilidade da vida. Entre cadernos e livros, descobriu a alquimia da saudade em palavras e os detalhes em matérias-primas para seus escritos, tornando-se educador de si e dos outros. Em princípio, trilhando e formando jovens para o mundo, moldando o seu ofício. A juventude amadureceu... além disso faltava algo; aquela inquietação, uma comichão no pensamento e nas mãos. Precisava codificar o que o coração dizia em anotações, transmutando-se, enfim, no escritor. Começou a desbravar os vocábulos em textos, contos, crônicas e poemas. Cada linha escrita era um território conquistado, um novo horizonte. Seguindo esse caminho, vieram as associações culturais, palestras espalhando ideias, lançamentos de livros celebrando conquistas e Academias que o acolheram como membro ativo da tradição literária. O autor, que em tempos foi um garoto desatento à saída da escola, tornou-se agora uma presença notória nos meios literários, compartilhando experiências prudentes e sua arte. Escrever não é apenas registrar reminiscências ou inventar histórias, mas sim dialogar com personagens, leitores e consigo mesmo. Hoje celebramos os outonos do escritor Maurilio e, para marcar esse momento, transmutamos seu nome em verbo, Mauriliar... isso é vocação em educar, inquietude em disciplina, lembrança em poesia. Vamos todos festejar a força da palavra e da vida. *Professor, escritor, diretor de Relações Públicas da Contemporânea – Projetos Culturais, membro da Academia Vicentina de Letras, Artes e Ofícios