Com a IA, será inaugurado o derradeiro mecanismo para dominar outras nações: o conhecimento (Pixabay) Em recente crônica, mencionei a ausência de projeto para Pindorama, mazela que atinge todas as correntes políticas (a menos que confundamos projeto para perpetuação no poder com projeto para o País). Bolcheviques e mencheviques, ops, camisetas vermelhas e camisetas verde-amarelas disputam o monopólio das virtudes (quanta distração), e a caravana passa. EUA e China disputam, braçada à braçada, o protagonismo do desenvolvimento da inteligência artificial (IA). Ocupar o primeiro lugar nesse pódio não irá coroar a vaidade de uma nação (o que pode se revelar como efeito meramente acessório). Está em jogo algo muito mais relevante: a capacidade de subjugar outras nações de maneira inédita e, provavelmente, perene. Num passado distante, nossa subespécie precisou trabalhar em regime de cooperação entre seus indivíduos para que pudesse atingir o topo da cadeia alimentar planetária. Percebendo que não havia mais espécies a subjugar, passou a impor sua vontade a outros grupos da própria subespécie. Quais mecanismos eram (e ainda são) utilizados? Poderios bélico e financeiro. Com a IA, será inaugurado o derradeiro mecanismo para dominar outras nações: o conhecimento. Os gurus da tecnologia tentam adivinhar quando será concluída a inteligência artificial geral, criação que, pela primeira vez na História, superará o conhecimento de seu criador. Os cientistas apostam num prazo de poucos anos. Recentemente, consciente das nefastas consequências de perder o bonde da História, a presidente da Comissão Europeia revelou que a União Europeia se comprometeu a destinar 200 bilhões de euros para o desenvolvimento de IA no Velho Continente. Mais uma vez, vamos optando por ficar para trás. Há poucos dias, em Pindorama, nosso presidente indagou: “Um país que tem tanta gente inteligente, para que precisa de inteligência artificial? Por que não utilizamos da inteligência humana que nós já temos aqui?”. Se essas perguntas não traduzissem a possibilidade de selar nosso destino como escravos tecnológicos de outras nações (quaisquer que sejam as cores da camiseta que usem por lá), daria gargalhadas dessa “falta de absurdo”. O cenário muda, mas permanecemos no estágio de ignorância mais puro e libertador: não sabemos que não sabemos. E lembrei de letra de Humberto Gessinger que embalou minha adolescência: “Nossos sonhos são os mesmos há muito tempo, mas não há mais muito tempo pra sonhar”. *Coronel da PM, advogado e escritor