(Unsplash) Os idosos chegam ao consultório com preocupações muito diferentes de décadas atrás. Há uma pergunta, em especial, que ouço cada vez mais: “Doutor, vou conseguir continuar dirigindo?” Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! À primeira vista — com o perdão do trocadilho —, parece uma dúvida estritamente sobre a visão. Na verdade, trata-se de uma profunda preocupação com a autonomia e a liberdade. Após anos atendendo a essa população, aprendi que esse questionamento raramente é sobre o automóvel. Ele fala sobre a possibilidade de seguir conduzindo a própria vida: o almoço de domingo, a visita aos amigos, a ida ao mercado ou ao médico. Quando a visão deixa de atender aos requisitos para dirigir, o que realmente assusta não é a garagem vazia, mas a perda da independência. O idoso de hoje é muito diferente daquele de gerações anteriores. Vive mais, permanece ativo e conectado: usa celular, lê, viaja, trabalha e participa da vida social. No consultório, encontro exemplos disso com frequência. Recentemente, atendi uma profissional de RH, de 78 anos, que atua em uma empresa de navegação e fará cirurgia de catarata. Acompanho uma comerciante de 93 anos que mora sozinha, busca os netos na escola e trata glaucoma. Outro paciente, aos 98 anos, escreve sua autobiografia e trata a degeneração macular relacionada à idade (DMRI). Nenhum deles deseja apenas enxergar melhor; todos querem preservar a participação na própria história. Quando a visão falha, a perda não se limita aos olhos. A leitura cansa, rostos conhecidos são reconhecidos a distâncias menores e dirigir à noite deixa de ser seguro. Pequenas limitações cotidianas comprometem a segurança de seguir conduzindo o próprio destino. Viver mais, por si só, não basta. O desafio é manter a capacidade de decidir, deslocar-se e comunicar-se. A visão ocupa um lugar vital nesse equilíbrio, ao lado da cognição e da mobilidade. Cuidar dela reduz o risco de quedas, evita o isolamento e blinda a autonomia. Santos já celebra a longevidade. Segundo o Censo 2022 do IBGE, mais de 25% da população santista tem 60 anos ou mais, dando ao município o maior índice de envelhecimento do país entre cidades com mais de 50 mil habitantes. A idade mediana aqui é de 42 anos, a maior de SP. Não por acaso, o IDL 2023 apontou Santos como a terceira melhor cidade do país para acolher essa população. Viver mais é uma conquista; viver com autonomia é o verdadeiro triunfo. Por isso, enxergar é poder fazer as melhores escolhas para continuar sendo dono da própria vida. Marcello Colombo Barboza. Professor universitário, doutor e livre-docente em Oftalmologia, MBA FGV em Gestão de Saúde e diretor clínico do Hospital Visão Laser.