(Imagem gerada por IA) Em todo ano eleitoral surge a mesma convocação, repetida como se fosse novidade: “Está na hora de sair das redes sociais e ir para as ruas”. A frase tenta transmitir proximidade com o povo, um gesto de reconexão com a realidade. Mas, na prática, quase sempre significa apenas uma coisa: começou a campanha. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Não se trata exatamente de ir às ruas para resolver problemas. Na maioria das vezes, trata-se de ir às ruas para filmá-los. Mostrar buraco, apontar lixo, registrar mato alto, gravar filas na saúde, fazer vídeos indignados diante de dificuldades que a população enfrenta todos os dias. O povo não precisa de guia turístico da própria tragédia urbana. Quem mora na cidade já conhece bem essa realidade. O que chama atenção é ver velhos personagens da política — deputados veteranos, figuras que já atravessaram diversos mandatos, alguns há décadas ocupando cargos públicos — reaparecerem como se estivessem descobrindo os problemas agora. Caminham pelas ruas como se aquela paisagem de abandono fosse novidade. Criticam o caos como se nunca tivessem tido tribuna, gabinete, orçamento ou influência política para ajudar a mudar o cenário. É fácil transformar a rua em cenário, difícil é transformá-la em resultado. Criou-se uma confortável especialização na denúncia sem consequência. Aponta-se o erro, distribuem-se culpados, produzem-se vídeos e discursos. Mas, quando se olha para trás e se soma o legado concreto de tantos mandatos, a pergunta permanece: o que realmente mudou? Que políticas estruturais foram construídas? Que marcas administrativas ficaram além das postagens nas redes? Ir para a rua, por si só, não tem valor político. O que dá sentido à presença de um representante público nas ruas é a capacidade de transformar demanda em solução, discurso em ação, mandato em entrega. Sem isso, a caminhada vira apenas desfile eleitoral; a escuta vira encenação; e a indignação, estratégia de marketing. Talvez esteja mesmo na hora de sair das redes sociais. Mas não para trocar o estúdio pelo palanque improvisado na calçada. E sim para abandonar de vez a política cenográfica — aquela que visita o problema, lucra politicamente com ele e depois desaparece. Porque a rua não é palco de campanha permanente. A rua é o lugar onde a falta de resultado do poder público aparece sem maquiagem. E quem já está há muito tempo na política não pode voltar agora fingindo que acabou de descobrir a realidade que sempre esteve diante de todos. *Alexandre Aniz. Advogado e pós-graduando em Direito Eleitoral.