Foto ilustrativa (Alexsander Ferraz/AT) À beira do mar, onde a brisa se mistura ao sal e ao sonho dos pescadores, acorda uma cidade que respira junto com o mundo. Em cada onda que quebra na areia, surgem sinais de que algo mudou: o calor que escorre pelo asfalto, a areia que arde nos pés, a noite abafada que transforma bairros em ilhas de calor. De Santos a Paraty, de Niterói a Ubatuba, todas partilham o mesmo destino: marés que avançam, chuvas que invadem, placas tectônicas que estremecem em silêncio. O litoral, que sempre foi sinônimo de refúgio e beleza, agora sussurra alertas que poucos querem ouvir. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A cada verão, os sinais ficam mais nítidos. A maré sobe um pouco mais, a ressaca arranca pedaços de calçada, o vento carrega consigo não só o sal, mas a lembrança de que a Terra está aquecendo. Nas marinas e nos canais, a água se infiltra onde antes havia apenas chão firme. Quem caminha pela areia sente que o tempo do planeta não é mais o mesmo. E o que parecia distante nos mapas e relatórios agora mora no cotidiano: casas ameaçadas, ruas alagadas, encostas fragilizadas. Mas a beleza insiste em renascer com a maré. Roterdã reinventou seu pacto com a água: praças que viram reservatórios, bairros flutuantes, canais que respiram com a chuva. Copenhague transformou a drenagem em paisagem, criando parques que absorvem tempestades como esponjas verdes. Tóquio e Sendai, moldadas por abalos e tsunamis, ergueram cidades flexíveis, prontas para reagir ao imprevisível. Enquanto isso, nossas cidades costeiras ainda tateiam caminhos entre o encanto do mar e os riscos que ele impõe, buscando soluções que respeitem o território e a memória. Cada punhado de areia remexido parece um lembrete: o tempo não se mede apenas nos relógios, mas nas geleiras que choram, nos manguezais feridos, nas árvores abatidas pelo avanço do concreto. O sal invade o solo, a ferrugem corrói estruturas e a umidade avança sobre histórias gravadas em pedra. A crise climática deixou de ser um problema futuro: ela se tornou vizinha, bate à porta com cada tempestade e cada noite de calor insuportável. No entanto, onde há gesto consciente, existe horizonte. A cidade à beira-mar do futuro será aquela que plantar sombra, recuperar mangues, semear telhados verdes e criar fachadas que respiram. O relógio climático corre, mas ainda há chance de ajustar seu compasso. A maré sobe devagar, mas sobe. E enquanto o mundo decide seu passo, uma pergunta ecoa como brisa e ressaca: será que nossas cidades conseguirão aprender a dançar com o mar a tempo?