Tem frases que, de tão repetidas, vão se desgastando com o tempo, mas não desaparecem. “A vida é feita de encontros” é uma delas. Talvez porque os encontros interrompam a rotina, abrindo pequenas fendas por onde o sentido reaparece. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Fala-se muito em conexões. Redes sociais, redes de trabalho, redes de tudo. A ideia não é nova. No início do século passado, um escritor húngaro imaginou que qualquer pessoa no mundo poderia ser alcançada por uma cadeia curta de relações. Poucos intermediários bastariam para ligar um ponto a outro do planeta. Já naquela época, refletia-se como o avanço das comunicações encolhia o mundo, aproximando pessoas e ideias, e questionava-se o significado dessa expansão do pensamento humano, capaz de conectar e, ao mesmo tempo, desorganizar a realidade. Décadas depois, essa intuição ganhou forma: o mundo funciona como uma rede. Um pequeno movimento aqui repercute longe, atravessa caminhos invisíveis, produz efeitos que ninguém controla inteiramente. Não são apenas as pessoas — tudo parece obedecer a esse princípio. Lembro de Miguel Nicolelis: no cérebro, nada funciona isolado, tudo se organiza em rede. Pensar já é conectar; decidir é o que emerge dessa trama silenciosa. A conectividade não é um produto da modernidade, mas uma condição da própria mente. No restaurante, observei as mesas ao redor. Em várias delas, o silêncio não era falta de assunto, mas excesso de tela. Cabeças baixas, dedos em movimento, cada um recolhido ao seu pequeno mundo. Estavam juntos, e, ainda assim, em outro lugar. Em momentos de isolamento, a conexão virtual se mostrou necessária. Há algo, porém, que ela não alcança: o tempo partilhado sem urgência, a conversa que se alonga sem motivo, o riso que surge sem aviso, coisas que só fazem sentido naquele momento. O mundo pode estar todo ligado. Mas é nesses instantes, quase invisíveis, que a vida encontra o seu ponto de contato: — Meu amigo querido, há quanto tempo!