(Pixabay) Quem espalha bondade é filho da luz. Simples assim. As imagens da semente do trigo, do joio, do grão de mostarda e do fermento não são enfeites de sermão. São retratos da nossa vida interior. Falam daquilo que a gente sente, mas nem sempre consegue explicar. Apontam para algo maior que nós. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A parábola do trigo e do joio, ecoando do Evangelho de Mateus, capítulo 13, nos presenteia com uma sabedoria que transcende o simples dividir o mundo em mocinhos e vilões. Ela revela uma verdade mais profunda e delicada: a alma humana é um entrelaçar de fios, uma mistura intrincada. Somos tecidos pelas tapeçarias de nossas vivências, nutridos pelos afetos que nos moldam e marcados pelas dores que, por vezes, guardamos em segredo. Não há ser que seja exclusivamente trigo, nem alma que seja apenas joio. Nestes tempos que nos desafiam, a narrativa ancestral ressoa com uma intensidade que pulsa em cada um de nós. Em meio a um mundo que, por vezes, soa ensurdecedor, marcado por vozes que se dividem em polarizações, estigmas e desqualificações, e por uma indiferença que pode ferir mais fundo que qualquer ofensa direta, a antiga parábola do trigo e do joio ganha nova urgência. Ela se despoja do tempo e se transforma em um chamado gentil: o convite à paciência, à tolerância e ao discernimento. Paciência não é a inércia de quem espera, mas a força serena de quem respira fundo no meio da tormenta, compreendendo que a maturidade das coisas, assim como a da vida, tem seu próprio ritmo. O discernimento, por sua vez, é o convite a desacelerar o olhar, a não se deixar levar pela primeira manchete, pelo boato que corre solto ou pela raiva que cega. É a arte de desmembrar a crise em detalhes menores, de observar cada nuance, de permitir-se respirar antes de julgar. Pois sentir, ah, sentir é inerente a nós. Mas decidir, isso exige a clareza da lucidez. Cuidar da vida pede outro gesto. Pede sensatez mansa. Pede prudência com alma. Afinal, a nossa vocação não é ser o juiz dos imperfeitos. É ser a boa semente que insiste. Que brota mesmo em terreno seco. Que cresce torta, mas cresce. Que dá fruto mesmo quando ninguém está olhando. E é aqui que entra a figura mais delicada de todas: o fermento. O fermento não faz barulho. Não disputa palco. Ele entra quieto na massa e, com paciência, transforma tudo ao redor. É a esperança silenciosa. A que trabalha por dentro. Semear bondade é assim. É como chuva mansa — aquela que molha fundo sem machucar a terra. Num tempo tão áspero, cultivar o bem comum não é ingenuidade. É coragem. É o gesto mais humano — e mais divino — que nos resta. José Geraldo Gomes Barbosa. Engenheiro, advogado e mestre em Direito Ambiental.