[[legacy_image_307833]] O mundo todo recebeu com certa surpresa o resultado do primeiro turno das eleições presidenciais na Argentina, realizado no último dia 22. O peronista Sergio Massa obteve mais de 36% dos votos e tomou a dianteira da disputa. O bom desempenho do candidato, que é ministro da Economia, era considerado pouco provável, uma vez que apenas uma pesquisa, de um total de pelo menos 12 realizadas no país, conseguiu acertar o resultado da votação. Os levantamentos de intenção de votos apontavam o deputado Javier Milei, ultraliberal, como preferido do eleitorado argentino. No entanto, ele ficou em segundo lugar com 29,98% dos votos. Isso quer dizer que as pesquisas erraram? Não, elas eram um retrato do dia em que foram realizadas. Mas política não é uma ciência exata, pelo contrário, é extremamente mutável. E as pessoas mudam de opinião. Prova disso é que nas eleições primárias, em agosto, Milei havia obtido o melhor desempenho, com Massa em segundo. Durante as primárias, o povo argentino mandou um recado ao governo, de descontentamento com o delicado momento econômico do país. O noticiário argentino aponta que o quilo da carne passou de 290 pesos em 2019 para 2,9 mil pesos em 2023. O croissant saltou de 40 pesos para 280 pesos no mesmo período. Com mesas menos fartas, os argentinos reprovam o governo atual, do qual Massa faz parte. Pesquisa realizada pela Universidade de San Andrés, em julho de 2022, mostrou que, à época, o índice de reprovação do presidente Alberto Fernández era de 75%. Apesar da insatisfação, o fato é que mais da metade da população depende de algum tipo de benefício social do governo e os eleitores, especialmente os idosos, que são ainda mais vulneráveis, não quiseram arriscar o futuro e apostar em um panorama carregado de incertezas, com as mudanças radicais propostas por Milei. Ou seja, recai sobre as eleições na Argentina, assim como em toda a América Latina, um fator determinante na hora do voto: a pobreza. Os reflexos econômicos da disputa eleitoral argentina, cujo segundo turno ocorre em 19 de novembro, serão sentidos também no Brasil. Temos, com o país vizinho, um forte histórico de relações políticas e econômicas, além das questões geográficas de fronteira que também são importantes. Uma possível vitória de Massa deixará o governo brasileiro em situação mais confortável, de alinhamento de políticas econômicas e sociais de esquerda. Por outro lado, Milei já anunciou que, caso eleito, pretende deixar o Mercosul e cortar relações com o Brasil. Tais medidas podem ter apelo popular, porém encontram pouca aplicabilidade, dada a importância dos arranjos econômicos, de importação e exportação, firmados entre os dois países. Uma ruptura, neste momento, pode trazer sérias consequências para ambas as nações, sendo ainda mais desastrosa para a própria Argentina. Milei está blefando? Só saberemos com sua eventual eleição. Seja qual for o resultado, as disputas políticas da Argentina nos mostram que o eleitorado está mais distante, com um índice de abstenção próximo a 25% no primeiro turno. O mesmo cenário foi observado no Brasil em 2022, quando o número de abstenções chegou a mais de 31 milhões, o que representa 20% dos cidadãos aptos a votar e a maior porcentagem desde 1998. Em meio às disputas eleitorais, cada vez mais radicalizadas entre direita e esquerda, há uma parcela crescente da população que se sente pouco representada e atraída pelos discursos raivosos de polarização. Os eleitores buscam equilíbrio. A classe política ainda precisa compreender esse fenômeno com maior profundidade.