(Alex Pazuello/Secom) O racismo estrutural silencia vidas no Brasil, mostrando que as feridas do ontem continuam abertas. Como cantou Paulinho da Viola, “eu não vivo do passado, o passado vive em mim”. Essa herança dolorosa pulsa em nossa história; após séculos de escravidão, a abolição assinou a liberdade no papel, mas empurrou negros e indígenas para as margens, desprovidos de direitos. Hoje, esse preconceito se camufla na rotina de quem recebe os menores salários ou é seguido no supermercado. A brutalidade contra João Alberto, espancado até a morte em Porto Alegre em 2020, retratou a engrenagem que enxerga o corpo negro com suspeita automática. Diante disso, embora as leis prevejam reclusão, os registros dessa violência saltaram mais de 120% em poucos anos. O castigo chega tarde; para reescrever o amanhã, o Estado precisa cultivar a mudança desde a infância. A psicologia indica que as crianças percebem as diferenças raciais aos três anos, momento exato para semear a igualdade. Porém, o abismo social se impõe cedo. Dados do IBGE revelam que apenas 37,8% dos pequenos pretos ou pardos frequentam creches, diante de 45,6% dos brancos. Para combater essa largada injusta, o educador Anísio Teixeira defendia os Parques Infantis em tempo integral: oásis democráticos onde saúde, arte e educação garantiam a todos o mesmo ponto de partida. A Lei Federal 10.639/2003 obriga o ensino da história, da cultura afro-brasileira e indígena nas escolas. Ela resgata o papel de negros e povos originários como construtores da nossa riqueza, e não como submissos. Contudo, após duas décadas, essa engrenagem patina na falta de vontade política: a ausência de formação continuada para professores e de fiscalização rigorosa ameaça tornar o texto legal em letra morta. Essa distância se reflete no diagnóstico: 72% dos brasileiros reconhecem o racismo no país, mas só 33% admitem serem preconceituosos. A escola encurta esse abismo, porém o ensino que liberta precisa dar respostas concretas: quantos jovens da rede pública cruzam as portas das universidades para cursar Medicina ou Engenharia? Qual é o desempenho dos estudantes no sistema Pisa, que avalia o aprendizado da matemática e do português em situações reais? Uma sociedade justa é como um jardim: cada flor tem sua cor, mas todas partilham do mesmo solo. Garantir essa base é o que torna o ensino o verdadeiro trampolim para o futuro. Educar com afeto, técnica e história desde o berço desarma o ódio. Só fecundando a infância com dignidade formaremos adultos prontos para estender a mão fraterna, nunca o pé da opressão. *José Geraldo Gomes Barbosa. Engenheiro, advogado e mestre em Direito Ambiental