( Pixabay ) O mundo vive sob o império de duas prioridades vitais: o desafio climático e o combate à farsa. Entre as duas lutas pela sobrevivência, a chance de nos redimirmos pelo espírito da arte, o triunfo da poesia. A mentira mata tanto quanto as catástrofes ambientais. Antídotos contra as famigeradas fake news? O bom jornalismo, a ética da informação e a quebra de preconceitos. Todo preconceito é burro, portanto carecemos de uma ampla estrutura de informação segura e abalizada pela ciência. Tabus inconsistentes, dogmas fossilizados, superstições sem lastro e muita má-fé são terrenos férteis para o boato e a fraude. Com o advento da internet, a possibilidade de disseminar mentiras se potencializou dramaticamente. O decréscimo nas taxas de vacinação? Põe na conta das fake news. Quem vai pagar pela retorno da poliomelite ou coqueluche? Quem vai pagar pelo negacionismo sobre mudanças climáticas e desmatamento? Não esqueço de uma reveladora palestra do especialista em segurança digital Jose Levi, num raciocino estarrecedor: “Fake news destrói e mata. Houve nos EUA um presidente que disse que era melhor ingerir desinfetante do que vacinar contra a covid-19. Nos dias subsequentes, entre 50 e 60 pessoas foram internadas por desinfetantes”. Trata-se do aspecto mais bizarro em meio a milhares de ocorrências envolvendo, por exemplo, a fraude institucionalizada no descaso das bigtechs e a ausência de legislação eficiente a coibir o caos cognitivo decorrente. Quem mente sabe que a chave do medo é o caos, que por sua vez instaura o domínio do niilismo, a supremacia do nada desagregador. Precisamos mais do que nunca de jornais, da boa mídia e de credenciais. Mas contra a mentira criminosa urge a criação de políticas de Estado a defender os princípios da civilização. Fico feliz com a aprovação, pela Assembleia Legislativa, de projeto de educação digital do engajado deputado estadual Caio França. Foi criada a Semana Estadual de Educação Midiática, pioneira medida de pedagogia aplicada ao uso de tecnologia e combate à desinformação linkada a iniciativas globais, desde a União Europeia até a Unesco, contra a desumanização cibernética. Preparar alunos da rede publica para segurança internética é primeiro passo para segurança psicológica, informacional e cognitiva. Cito aqui dois maiores pensadores vivos do planeta sobre o tema candente. Edgar Morin escreveu livro fundamental para uma sociedade pós-verdade complexa, Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro, e alertava ainda nos anos 90: “Seguimos como sonâmbulos e estamos indo ao desastre”, em referência à confusão informacional e epistemológica entre real necessário e virtual ilusório. Leio Morin todo dia, ele aos 103 anos ativíssimo. Noam Chomski, aos 96, crava na mosca: “A desilusão com as instituições levou a um ponto que as pessoas não acreditam nos fatos. Se você não confia em ninguém, por que confiar nos fatos?” Eis o caldo para o Leviatã de Hobbes, agora adaptado a este dicotomia entre duas realidades: a concreta de carne e osso e a digital que conta tanto comandando a primeira desde as nuvens algorítmicas. A educação agora precisa de duas: formação para o verdadeiro tradicional e orientação para não sucumbirmos diante dos caminhos nebulosos do virtual onipresente. Educação digital viva! *Flávio Viegas Amoreira. Escritor e membro das academias de Letras de Santos e Praia Grande