Eu tive aulas de Educação Moral e Cívica no ginásio de escola pública, nos anos de 1970. No colegial, fazia parte do currículo a disciplina Organização Social e Política do Brasil. Na universidade privada onde estudei, tive aulas de Estudo de Problemas Brasileiros. Um ministro do STF alegou ter sido recentemente objeto de manifestação de ódio por parte de uma funcionária de empresa aérea. As disciplinas que mencionei ainda são lecionadas em escolas públicas e particulares? Considerando a preocupação do ministro com relação ao discurso de ódio, bastante pertinente, aliás, parece que não. Tenho três exemplos análogos de adeptos de sua ideologia declarada. Um deles é de um professor universitário de instituição de ensino federal que, num evento, citou trecho do poema “Interrogação do Bom”, de Bertolt Brecht: “Você é nosso inimigo. / Mas em consideração aos seus méritos e boas qualidades /Nós iremos colocá-lo frente a uma boa parede e atirar em você /Com uma boa bala de uma boa arma e enterrá-lo /Com uma boa pá na boa terra”. Ao que consta, o atual regime cubano foi recorrente nessa prática, e não só ele. Outro professor de universidade federal afirmou que uma menina merecia ser morta por portar uma bolsa de grife, esquecendo que uma pessoa alinhada com sua ideologia, ocupando cargo governamental de alto nível, porta adereços muito mais caros, comprados com dinheiro público. Por fim, é preocupante o posicionamento de certos estudantes da área de ciências humanas, e seus doutrinadores, que impedem a presença de qualquer indivíduo que não comungue de suas ideias nos campi, com discursos de ódio e agressões físicas. Isso vale para extremismos de direita, também. O ministro seguramente deve considerar que essas pessoas também deverão cursar Educação Cívica, se é que a imunização cognitiva, fanatizante, a que foram submetidas ainda permita raciocínio autônomo e abandono de doutrinas hegemônicas. A Educação Cívica não se limita ao respeito às instituições e aos que nelas atuam, eleitos ou não. Ela também exige que os que exercem funções públicas também as respeitem e o povo que paga suas remunerações. Quem julga também é julgado pela sociedade e deve estar atento a esses sinais. A necessidade de Educação Cívica, portanto, não é relativa ou de mão única, mas uma obrigação social de respeito às instituições e, principalmente, às pessoas. O discurso de ódio, de onde quer que venha, é inaceitável, de onde quer que venha! No caso do ministro, o ocorrido merece autorreflexão sobre o que motivou essa manifestação, pois seus atos afetam toda a sociedade. Nesse sentido, é importante conhecer a opinião pública de forma isenta, sem contaminação ideológica ou presunção de inatingibilidade. *Adilson Luiz Gonçalves. Escritor, engenheiro, pesquisador universitário e membro da Academia Santista de Letras