(Alexsander Ferraz/AT) Como preparar edifícios do passado para pessoas do futuro? Recentemente, durante uma conversa com meu amigo Tiago Marsaioli, surgiu uma pergunta inquietante: qual é o futuro dos condomínios? Nos dias seguintes, percebi que aquela não era apenas uma discussão sobre edifícios, mas sobre pessoas e a capacidade dos espaços de continuarem respondendo às necessidades de quem os habitará amanhã. O Brasil está envelhecendo e as cidades precisarão se adaptar a novas demandas relacionadas à mobilidade, acessibilidade, saúde e qualidade de vida. Grande parte dos edifícios onde viveremos nas próximas décadas já está construída. Muitos foram projetados há vinte, trinta ou quarenta anos, quando não existiam aplicativos de entrega, trabalho remoto em larga escala, carros elétricos ou inteligência artificial integrada ao cotidiano. As edificações permaneceram as mesmas, mas a forma de viver mudou profundamente. Quem comprou um imóvel aos quarenta anos no início dos anos 2000 hoje se aproxima dos sessenta. O apartamento continua no mesmo lugar, mas a pessoa já não é a mesma. Os edifícios envelhecem devagar, enquanto as pessoas envelhecem dentro deles. O mesmo acontece com as cidades. Quando os espaços deixam de acompanhar as transformações humanas, perdem significado e passam a oferecer respostas para necessidades que já mudaram. Em cidades consolidadas como Santos, essa discussão deixou de ser uma tendência futura para se tornar uma necessidade do presente. Afinal, os condomínios também são retratos vivos das transformações sociais que acontecem além de seus muros, refletindo hábitos, tecnologias e formas de convivência que mudam com o tempo e redefinem o modo de habitar. A verdadeira obsolescência raramente nasce no concreto. Ela surge quando os espaços deixam de responder às necessidades humanas. Tecnologia, por si só, não torna um edifício inteligente. O que o torna inteligente é sua capacidade de adaptação e leitura contínua das mudanças da vida cotidiana. Ao final daquela conversa, percebi que a pergunta sobre o futuro dos condomínios não era uma pergunta sobre tecnologia. Era uma pergunta sobre tempo. Talvez os edifícios mais valiosos das próximas décadas não sejam os mais novos nem os mais sofisticados, mas aqueles capazes de continuar servindo às pessoas mesmo quando elas mudarem. Porque o futuro chega silenciosamente. Ele entra pelos portões, sobe pelos elevadores e bate à porta de cada apartamento. Estamos preparando nossos condomínios para recebê-lo? *Alessandro Lopes. Arquiteto, urbanista, pesquisador em Inovação, Sustentabilidade, Infraestrutura Urbana e BIM, consultor regional ICT Multiplicidades