(Pixabay) Minha amiga acertou quando disse que a realidade é para os fortes. É coisa para mim e para você, às voltas com a situação perversa de ter que provar ao INSS que nunca se inscreveu nas associações especialistas em tungagem. Realidade é para quem chega aos hospitais com filho doente de verdade, a precisar de um transplante ou a arder em febre, em busca de alguma coisa que o faça respirar, pelo amor de Deus. Para quem chega com uma boneca que nunca fez nem vai fazer cocô ou xixi, não vai se acabar de tossir, que não saberá nunca o que é cuidar de um bebê com paralisia ou outro comprometimento, a realidade é coisa para os desafortunados, os desgraçados que nunca terão R\$ 10 mil para garantir cesta básica, aluguel, o xarope da criança, a carne, o pão, o terço para rogar a Deus por dias melhores. Essa gente que não foge à luta tem algumas habilidades, é bem verdade. Faz milagre com o aumento (algo entre 5% e 7%) dos benefícios e pensões do INSS, sobrevive ao calendário de perícias e cirurgias pelo SUS e suporta o desrespeito de uma sociedade que não enxerga o velho. Uma sociedade que não enxerga o outro, aliás, porque habita a Terra do Nunca das fantasias aplaudidas por milhões de seguidores. Como vivem a fazer das tripas coração, esses fortes não têm tempo para brincar, nem de boneca nem de coisa nenhuma. Mas, embora forte, é uma gente ingênua, que vota em quem tem tempo para gazetear, para criar leis que darão legitimidade a cegonhas de bebês fantasia, com roupinha no capricho e nenhum coraçãozinho no peito. É sério isso? Todo mundo falando dos bebês reborns, a nova tendência, como denomina quem doura a pílula. Há gente perplexa com a normalização do surreal, outro tanto aperreada pela noite em claro com o miúdo de carne, osso e cólicas, e os que defendem apoio psicológico a quem mergulhou na maternagem vazia. Tem gente esperta a brigar na Justiça pelo lucro que o bebezinho rende na internet. Dinheiro a compensar o capital investido pelos papais, que nem serão processados por explorar trabalho infantil... É só dividir o dinheiro que a loucura rende. Loucura deve ser a tendência. Há de todo tipo e um passeio pelas redes sociais lhe põe em contato com elas. Chego à conclusão que os fortes são, também, aqueles que sabem conviver com a própria loucura, sem sair com tabuletas ao peito, reivindicando um lugar de aceitação nesse picadeiro onde vale a performance do vazio e do ridículo. Esse meu viés radical e sem a menor paciência me confinará ao meu próprio céu. Na porta, um aviso: “O inferno são os outros”. Que lutem! *Vera Leon. Jornalista