(Foto AT) Quero comentar um episódio recente, infelizmente não inédito, no qual policiais militares e policiais civis acabaram se confrontando durante uma operação em uma favela da Zona Sul de São Paulo. O fato é simbólico. Fale-se o que quiser, elaborem-se os protocolos que forem, mas há uma verdade incômoda: Polícia Militar e Polícia Civil são instituições completamente distintas, com culturas, finalidades e doutrinas operacionais que não se complementam de forma funcional. A Polícia Militar é uniformizada, hierarquizada, baseada na disciplina e na prontidão tática, com ação ostensiva. A Polícia Civil é investigativa, desuniformizada e operando com outros critérios, inclusive o sigilo e o tempo da apuração. Essas naturezas diferentes geram conflitos inevitáveis, sobretudo quando tentamos impor um protocolo comum de operação ou de comunicação. É irreal imaginar que em uma operação de rotina da Rota, por exemplo, vá se informar com antecedência uma delegacia, ou que o batalhão da área saiba de uma investigação em curso por parte de civis. Muitas vezes nem o delegado da área sabe. Por quê? Porque o sigilo é vital e os canais de compartilhamento, quando existem, se tornam vazamentos em potencial. Esse episódio citado ilustra bem a disfunção. Não se trata de falta de vontade ou de má fé - é a estrutura que está errada. Protocolos de “integração” entre polícias com naturezas tão distintas são frágeis, ineficazes e geram riscos operacionais. E o ponto central, ainda tabu, é este: duas polícias não funcionam. Além do custo financeiro duplicado para o Estado, temos um custo operacional imenso para a sociedade: duplicidade, desencontro, rivalidade e ineficiência. A médio e longo prazo, a unificação das polícias - com uma doutrina única, formação sólida e mecanismos adequados de controle interno e externo - é o caminho inevitável. A resistência é compreensível, mas não podemos ignorar o que a realidade mostra. Para o contribuinte, para o cidadão, para a vítima da violência e até para os próprios policiais que arriscam suas vidas em campo: uma polícia unificada é o melhor caminho. *Walter Rocha. Veterano da Polícia Militar de São Paulo