[[legacy_image_306160]] Se imagens refletem realidades, a última quarta-feira entrará para a história como o dia em que se observou uma mudança profunda nas relações internacionais. De um lado, o presidente norte-americano, Joe Biden, idoso, cansado, chegando em Israel, tentando fazer com que o seu principal parceiro na região lhe atendesse, a contragosto deste, para que não pesasse tanto a mão contra os palestinos em Gaza, em razão dos interesses dos Estados Unidos com outros países árabes e da pressão da opinião pública internacional, inicialmente solidária a Israel e, passados 12 dias do conflito, muito menos. Além disso, Biden foi esnobado com o cancelamento da reunião que teria em Amã, na Jordânia, com os presidentes do Egito e Autoridade Palestina que entenderam que sua visita pouco valor adicionava à resolução da situação. Do outro lado, atuante e contente, em Pequim, cercado de chefes de estado e governo, o presidente Xi Jinping, celebrando os 10 anos da Iniciativa Cinturão e Rota, um acordo de cooperação que se estende do continente eurasiático à África e à América Latina, com mais de 150 países e de 30 organizações internacionais. Além de estar comemorando o sucesso e os inúmeros acordos de cooperação, em bilhões de dólares, principalmente em infraestrutura e infoestrutura, a China cresceu 5.2% nos três primeiros trimestres deste ano, mantendo a sua posição de carro-chefe do desenvolvimento e comércio global. Dois mundos completamente à parte: enquanto em Pequim se discute como promover projetos de desenvolvimento econômico e o papel de eventos que estão mudando a feição econômica de vários países em desenvolvimento, em Washington o tema era como impedir que o conflito – para o qual os países europeus e Estados Unidos contribuíram substancialmente – se tornasse maior. E, ao mesmo tempo que isso acontece, Washington vê seus planos de saída do Oriente Médio diluirem-se. Afinal, o Hamas e Benjamin Netanyahu conseguiram o que os EUA mais temiam: ter de, novamente, engajar-se no Oriente Médio. E a conversa com Washington não é desenvolvimento, e sim fornecimento de mais armas para os países da região, medo do aumento do preço do petróleo e instabilidade que o conflito gera e gerará. O mundo está num processo de transição irreversível. O presidente Xi Jinping anunciou, durante o evento, oito medidas que pretende implementar nos próximos anos. Pequim, generosa com o talão de cheques, pretende investir bastante na melhoria da infraestrutura e infoestrutura de seus parceiros. O Banco de Desenvolvimento da China e o Banco de Exportação-Importação da China financiarão cerca de US\$ 100 bilhões em projetos de infraestrutura, além de US\$ 15 bilhões injetados no Fundo da Rota da Seda e mais US\$ 97,2 bilhões para conclusão dos acordos existentes. Os chineses compreenderam que a maior parte dos seus aliados precisa enriquecer para poder dar-lhes apoio mais efetivo internacionalmente. António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, afirmou na abertura do 3º Fórum Cinturão e Rota que a relevância da nova rota da seda é inegável e necessária diante dos enormes desafios que o mundo enfrenta atualmente. A mensagem ficou clara: a China vende infraestrutura e infoestrutura, o Ocidente vende armas. Enfim, dois mundos à parte. Em qual mundo o Brasil se encaixará?