<p data-end="335" data-start="114">Da janela do meu apartamento vejo a Serra do Mar. De costas pro continente, ela espia o oceano por cima dos arranha-céus. Protesta. Os prédios roubaram dela o canal. Ali ela gostava de ver os navios brincando de ir e vir.</p> <p data-end="511" data-start="337">Eu ainda vejo o mar. Do alto do décimo quarto andar, contemplo o jardim da praia anunciando o outono. Chapéus-de-sol se despedem das folhas róseo-douradas, cansadas do ciclo.</p> <p data-end="746" data-start="513">No calçadão, idosos de bengala fazem a caminhada matutina. Conversam felizes. Agradecem o sol e a alma que voltou ao corpo depois da noite. Esticam as pernas, convidam os nervos a marchar. É o jeito deles de adiar a cadeira de rodas.</p> <p data-end="1021" data-start="748">Na ciclovia o ritmo é outro. Homens e mulheres apressados correm. Uns vão pra Ponta da Praia, outros pra São Vicente. Moram em Santos e trabalham no Guarujá. Moram no Guarujá e trabalham em Santos. As panturrilhas grossas denunciam: a bicicleta é perna, é condução, é vida.</p> <p data-end="1258" data-start="1023">Um cargueiro grávido de containers avança pelo canal. Parece ansioso pela hora do parto. Logo atrás, em sentido contrário, um transatlântico se afasta. Dá braçadas de campeão mar aberto. Vai carregado de passageiros em busca de férias.</p> <p data-end="1548" data-start="1260">Os garis já passaram. Deixaram a areia pronta pro dia. Atletas aproveitam a juventude na corrida. Surfistas deitam nas pranchas, cabeça erguida, esperando a onda certa pra domar. Enquanto penso no lazer deles, eles vivem. Estão ali pro jogo eterno do mar: vai e vem, me pega se for capaz.</p> <p data-end="1748" data-start="1550">Junto ao canal 6, nadadores enfrentam as águas. Treino pro triatlo. Na avenida, corredores se preparam pros 10 km da Tribuna. Daqui de cima, Santos acorda inteira. E eu, parado, agradeço o camarote.</p> <p data-end="1783" data-is-last-node="" data-is-only-node="" data-start="1750">*Augusto Zago. Médico e escritor.</p>