(Alexsander Ferraz/ AT) Quando o trabalho deixa de definir quem somos, resta uma pergunta desconfortável. Numa roda de amigos, todos já com a aposentadoria no horizonte, surgiu a questão inevitável: o que você fará quando parar de trabalhar? As respostas vieram organizadas: viagens adiadas, cursos, projetos para continuar ativo. Até que um deles afirmou, com serenidade, que faria nada. O riso foi imediato, mas a palavra permaneceu suspensa no ar como provocação. Fazer nada, numa sociedade que mede valor por desempenho, soa como heresia. Aprendemos que existir é produzir, que agenda cheia é sinal de importância, que cansaço é medalha. Ele discordava dessa lógica. Não falava de desistência, mas de soberania. Queria acordar quando o sono terminasse, não quando o relógio mandasse. Tomar café sem pressa. Decidir, a cada manhã, se o dia teria movimento ou contemplação. Num mundo que opera 24 horas por dia, sete dias por semana, ele propunha a escala 0x7: zero imposições; sete possibilidades. O que incomoda não é o nada, é a ausência de justificativa. A modernidade transformou o tempo em mercadoria. Vendemos horas, acumulamos metas, exibimos produtividade como identidade. Trabalhamos décadas para conquistar descanso e, quando ele chega, não sabemos habitá-lo, porque nunca aprendemos a estar sem função. Sem metas, quem somos? Sem função, qual é o nosso valor? Nadismo não é apatia; é soberania sobre o próprio tempo. Dialoga com a ideia de que o ócio, livre de culpa, pode ser espaço de elaboração, como propõe Domenico De Masi. Mas, antes de ser criativo, o ócio precisa ser legítimo. Fazer nada é recuperar o direito de não performar, de não produzir apenas para provar utilidade. Observar uma árvore não gera lucro, mas reorganiza o pensamento. Caminhar sem destino não rende currículo, mas devolve percepção. O problema nunca foi o trabalho, mas o monopólio do trabalho sobre a identidade. Talvez o maior desafio não seja parar de trabalhar, mas desaprender a medir a própria existência por métricas externas que nunca foram suficientes para explicar a complexidade de estar vivo. Aposentar-se não é parar, é reconfigurar o tempo. Liberdade não é agenda cheia de opções, é suportar o silêncio entre elas. O direito ao nada é território de autonomia. Fazer nada não é estar morto, é estar disponível. Disponível para o que quiser, se quiser, quando quiser. * Alessandro Lopes.Arquiteto,urbanista,especialista em inovação,sustentabilidade e infraestrutura urbana