(Alexsander Ferraz) Na vida de um poeta, é a beleza que conta os dias. Fui assistir Dias Perfeitos, de Win Wenders, em um cinema dentro da praia, literalmente (termo tão em voga), bem ali na altura onde os navios fazem a curva de Santos para o mundo. Tinha consciência de que não iria ver um filme, mas participar de uma experiência estética. É isso, uma fita que iria marcar muito além das duas horas de exibição. Dias Perfeitos fala de encanto, devaneio, da imanência do milagre. O milagre aqui diante de um chapéu de sol, de uma sombra sob uma aleia de palmeiras selvagens ou a observação detida de uma fileira de ondas diante da balaustrada contida de silêncio. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Dei por mim que aquele cinema dentro da areia rente a um canal de jambolões foi inaugurado com um Wim Wenders tão mítico quanto Dias Perfeitos. Foi em 1992, com Asas do Desejo. Um compositor vindo de assistir a obra-prima no Belas Artes desceu a Serra imbuído da decisão de lutar por um cinema de arte em seu porto mítico. Foi Gilberto Mendes quem sugeriu à prefeita Telma. Dito e feito: uma sala de exibição que casasse natureza e arte. E não serão natureza e arte a salvar o mundo? Uma quarta-feira, casa cheia e atenta para vislumbrar Dias Perfeitos. Para um espírito insensível, no filme não acontece nada, quando na verdade a vida que conta está toda ali! Assisti Dias Perfeitos como quem se persigna diante de uma epifania. Mas não me alongo sobre o filme porque o brilhante Matheus Tagé já discorreu sobre o tema com maestria neste querido jornal. Fui acompanhado de um amigo, raro artista visual prestigiado que veio do Rio apaixonado pelas possibilidades de criação nesse nosso mar abraçado pelo cais, noroeste e maresia. Arthur Scovino, que implantou, algo com cara de Barcelona: uma residência artística no Centro velho (e eterno) na Rua do Comércio com vista à Praça dos Andradas. As residências artísticas descobriram Santos! Sair de um Wim Wenders diante do mar, admirar a exposição antológica de Araquém Alcântara na Pinacoteca, bebericar no Heinz e esticar no bom e velho Lanches Praia, na esquina das avenidas Epitácio Pessoa e Conselheiro Nébias, meu percurso pura metalinguagem de Dias Perfeitos! Seja em Tóquio ou num balneário no Atlântico Sul, viver é então a descoberta do infinito no cotidiano, o miraculoso no prosaico aparente. Desta margem do oceano, lembrei de outro poeta bendito, Rimbaud, dizendo: “Ela foi encontrada! Quem? A eternidade. É o mar misturado ao sol”. Algumas cenas de Wenders se misturam à brisa outonal, visão dum cargueiro melancólico ao crepúsculo, ao caramelado gosto de nostalgia de algum lugar que ainda não esteve ou desejo que ainda não foi. Na memória do som, a diva Nina Simone entoando Feeling Good: “Todas borboletas se divertindo / Dormir em paz quando o dia termina / Você sabe o que eu quis dizer”. Não precisa ir longe para encontrar propósitos elevados, nós nos habitamos em nós mesmos. Cultiva tua cidade, é no turismo interno do dia a dia dos teus entornos que encontrará a chama infinda. Leia o percurso como quem desvenda labirintos insondáveis. O sagrado não está no invisível, é o visível que conserva todos teus significados. Como diz nosso Bilac: “Nunca morrer assim! Nunca morrer num dia assim! O vento despencando os rosais, sacudindo o arvoredo...”