(FreePik) A dialética de vontades trata da aplicação do poder de dissuasão na resolução problemas e situações potencialmente conflitantes. São dois os seus elementos distintos e essenciais, segundo o general francês André Beuafre (1902-1975): a escolha do ponto decisivo que se quer atingir e a escolha da manobra apropriada para alcança-lo. A melhor maneira de se prever o futuro é, sem dúvida, por meio de uma análise hipotético-dedutiva, cujos elementos essenciais são: “se”, que é a hipótese básica; “e”, um acréscimo às considerações básicas; resultado esperado; “mas“, dependências que influenciam o resultado esperado e “portanto“, concluindo o processo. Talvez o melhor exemplo tenha vindo de Platão (428 a.C.-347 a.C.), quando, segundo alguns autores, utilizou hipotéticas situações vividas pelos tripulantes de um navio à vela, para “definir” o conceito de República. Segundo Platão, o comportamento de uma tripulação de um navio assemelha-se à vida em uma cidade, onde todos devem ter suas funções a realizar. Assim, para ele, uma tripulação pessimista apenas se queixa do vento e nada faz; uma tripulação otimista, espera que o tempo mude; mas, a realista, ajusta as velas de acordo com os ventos que estão soprando. A República é um ajuste de velas de acordo com os ventos que estavam soprando naquela época, antes de Cristo. Um bom exemplo sobre análise hipotético-dedutiva ocorreu na Batalha de Falaise, entre 12 e 21 de agosto de 1944, dando origem ao confronto decisivo para a libertação da França, durante a Segunda Guerra Mundial. Trata-se de um estudo interessante, pois ambos os lados levantaram diversas hipóteses, das quais o que seria correto para ambos os lados previa um recuo das tropas alemãs de Von Kluger para as margens do Rio Sena, evitando um combate decisivo em Falaise. Mas Hitler não concordou e Von Kluger atentou contra a própria vida, pois tinha certeza da derrota iminente. Bradley, comandante do Exército aliado, teve, assim, “uma oportunidade que chega a um comandante não mais do que uma vez em um século”, o que lhe permitiu “destruir um exército hostil inteiro e percorrer todo o caminho até a fronteira alemã”. As hipóteses levantadas por ambos os lados foram seis ao todo, sendo a mais provável a de Bradley não fazer nada e esperar a decisão de Von Kluger, cuja lógica militar o levaria ao retraimento das tropas alemãs para a margem do Rio Sena. A arte da aplicação do poder para alcançar um objetivo qualquer deve, portanto, se iniciar por meio de uma análise hipotético-dedutiva, cujos modelos e métodos de aplicação estão disponíveis no portal da Google. Infelizmente, poucas pessoas com poder de mando se utilizam desta arte milenar. *Elcio Rogerio Secomandi. <MC>Membro da Academia Santista de Letras