[[legacy_image_300570]] Como eu a idealizava, via nela uma deusa. Como era menina, passei a chamá-la de menina deusa. Foi minha primeira paixão. Meu primeiro amor. Aos 6 anos. Ela com 5. No Cine Campo Grande, enquanto a tela passava aventuras do Zorro, selamos com um beijo inocente nossas promessas de amor. Beijo inocente? Para ela não sei. Para mim era como entrar no paraíso terrestre com minha pequena Eva, sem as tentações da maçã. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Vivemos, enlevados, a pureza desse amor infantil. Éramos vizinhos no Campo Grande. Mas algum tempo depois ela mudou para a Pompeia. Foi morar perto da pensão onde Pelé também era rei, como nos gramados. Eu a perdi de vista. Era muito pequeno para ir sozinho vê-la em um bairro não tão próximo. E tinha vergonha de pedir que alguém me acompanhasse e descobrisse um romance tão precoce. Pensei se ela havia me esquecido. Se estava encantada por outro garoto. Se tudo entre nós não passara do sonho de uma tarde de verão. Apesar da distância, ela não saía do meu pensamento e do meu coração. O tempo, implacável, foi passando. Reencontrei-a, por acaso, só na adolescência. Entrava, acompanhada, no Cine Iporanga. Segui o casal. Sentei-me exatamente atrás deles. Testemunhei o suplício de um primeiro beijo. Depois outro. Ainda mais um. Não suportei mais a tragédia. Saí do cinema, vaguei a esmo pela Avenida Ana Costa. Cego de tristeza, quase fui atropelado por um carro. Embiquei em direção à praia. Pensei em entrar no mar e ir avançando. Ficar submerso, eu que não sei nadar. Desisti, até porque sempre disse a todos que se me suicidasse era porque estava louco. Adoro a vida. Afoguei minhas mágoas e meus desejos nos braços ardentes de Marilande. Ela me fez esquecer as tristezas, conhecer um mundo de delícias. Ensinou-me todos os segredos do prazer. Elevou-me à condição invencível de um Hércules. Jurou ser minha escrava no amor. “Faz de mim o que você quiser!” Marilande e o tempo foram, pouco a pouco, curando e fechando essa ferida. Durante décadas só tive vagas notícias a respeito dela. Por Munira, minha querida tia novidadeira. Casara com um turco rico. Já estava na quarta filha. O turco morreu. Casou com um amigo dele e dela, médico. Minha tia morreu. Fiquei sem novas notícias. A vida foi assumindo sua lógica própria. Apaixonei-me pelo jornalismo. E pela política externa brasileira. Viajei muito a trabalho, para atender minhas obrigações profissionais. Muito tempo depois eu a revi. Na Igreja São Judas Tadeu, no Marapé. Na missa fúnebre da minha tia Esmeralda. Chamou seu irmão para testemunha do reencontro suave. Tive a ilusão, por um momento, que estava devolvido aos tempos inesquecíveis do amor infantil. Fantasia pura. Tudo mudara. Eu tinha casado, ganhei uma filha. Descasei. Casei de novo. Só via o primeiro amor pelos olhos da amizade. A realidade, que eu finalmente aceitava, me conduzia agora à condição de amigo. Um bom amigo da menina deusa.