(FreePik) Dalton Trevisan foi imenso e disse do mundo peregrinando por sua Curitiba. Recluso nada, boêmio peripatético, interpretava o ser humano em sua complexidade pelos labirintos da Boca Maldita. Gênio da escritura, vampirizava a realidade extraindo com perícia de ourives a essência em contos no osso de exímia arquitetura narrativa. Aprendi e busco ensinar em minhas oficinas de escrita criativa a arte da contenção mais com Tchekhov e Trevisan do que qualquer opúsculo de teoria literária pudesse ensinar. O conto é a forma suprema para tempos partidos. Aprende-o, leitora e leitor, com Maupassant, com Pirandello, com o alemão Robert Walser. No Brasil, com Lygia Fagundes Telles e Dalton, insuperáveis. Destaco dentre as centenas de contos nos 99 anos de vida de Trevisan duas pérolas drapeadas de estilo: “Boa noite, senhor” e “Morte na Praça”. O tom de um conto é a atmosfera compactada, com as entrelinhas que exacerbam de sugestões e significados desdobrados. Poeta, tenho mesma paixão pelo conto. Na poesia surfo, na prosa submerjo. E para criar o escritor não prescinde de um cenário, de um ambiente característico. E são de duas espécies os que geram universos ficcionais: os que se habituam numa terra que lhe satisfaça e os inquietos de espaços variados que perambulam por continentes como quem vira a esquina. Desterrados que pouco saem de sua aldeia-mundo e viandantes autores que compõem suas obras em cadernos de viagem ou apontamentos de hotéis. Dalton em Curitiba abusou de talento, como Whitman no Brooklyn, Kavafis em Alexandria e Pessoa no Chiado. Já Hemingway corria entre touradas e safáris, Somerset Maugham romantizava em Singapura ou Ceilão e meu preferido Lawrence Durrell mandava cartas entre Corfu, o Cairo e até nossa Santos! Viajar ou pouco altera a criação, o escritor seguro habita-se plural em sua riqueza imaginosa. Dalton me inspirou dois livros de histórias curtas: “Contogramas” e “Apesar de você, eu conto”. Não pense que compor breve seja mais fácil que escrever romances. No conto, os defeitos são mais gritantes, a concisão é um esmero. Sigo ‘flaneur’ pelo porto mítico de Braz Cubas, como diz mestre Walter Benjamin: “O poeta... anda, indiferente e pensativo, a mastigar versos...” Não era “Viagens redor do meu quarto”, de Xavier de Maistre, livro preferido do Bruxo do Cosme Velho? No máximo, uma travessia até uma estratégica mesa de bar é horizonte talhado para uma boa estória imortal. *Flávio Viegas Amoreira. Escritor, membro das Academias de Letras de Santos e Praia Grande