[[legacy_image_270468]] A globalização aumentou o fluxo de comércio e ativos financeiros, bem como a circulação de mercadorias pelo planeta. Diminuiu distâncias, criou padrões de consumo e culturais comuns a todos os povos e a tecnologia da informação tornou possível a comunicação imediata entre as pessoas. Não abriu, porém, as fronteiras. Os indivíduos não podem circular livremente pelo mundo: as barreiras permanecem e o repúdio aos imigrantes segue muito elevado, especialmente nos países mais ricos e desenvolvidos. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Ainda assim, o desejo de emigrar é forte. Estudo do Instituto Gallup mostrou que, em 2022, 1,2 bilhão de pessoas gostariam de deixar de maneira definitiva o país em que moram, se pudessem, o que representa 15% da população mundial. O percentual aumentou 3% em relação a 2011, e a vontade de emigrar, como esperado, é maior entre os que vivem na África Subsaariana (36%), na América Latina e Caribe (31%) e no Oriente Médio e norte da África (29%). Pobre do nosso continente. Por aqui, a desesperança e a frustração são enormes e, não por acaso, é a região do planeta onde mais cresceu o desejo de emigrar: em apenas 12 anos, passou de 18% para 31% do total da população. Os habitantes da América Central sonham com uma vida melhor nos Estados Unidos; mais abaixo, as crises da Venezuela, Equador, Peru e Bolívia são permanentes, com destaque para a nossa vizinha Argentina, mergulhada na inflação galopante e no populismo há muito tempo. Mesmo no Brasil, que já foi o país do futuro, as expectativas e confiança são decrescentes. Talvez um dia exista um mundo aberto a todos, em que a opção de morar aqui e ali seja facultada a todos, de acordo com escolhas e preferências individuais. Hoje, e ao longo da história, a decisão de emigrar sempre esteve ligada à busca desesperada por melhores condições de vida. São situações de guerra ou perseguições, que caracterizam a figura dos refugiados, mas a maioria decide sair pela absoluta falta de recursos econômicos. A pobreza e a fome impelem multidões a arriscar suas vidas em busca de algo melhor. Essa foi a motivação principal das grandes ondas migratórias do século 19, como a ida em massa de irlandeses e italianos para os Estados Unidos. O Brasil é também um país feito por imigrantes: portugueses, espanhóis, italianos, alemães, sírio-libaneses, japoneses. Não me refiro, é claro, aos negros escravizados que foram trazidos à força para cá ao longo de quase quatro séculos, mas àqueles que, premidos pelas circunstâncias materiais, optaram por arriscar-se rumo ao desconhecido. Fico pensando nos meus tetravôs Karl Graner, alemão da Turíngia, e Rudolf Meyer, suíço de Gebenstorf, que vieram para o Brasil nos anos 1850 para trabalhar em fazendas de café, ou na aventura maluca do bisavô Alberto Veiga, que aos 12 anos deixou família em Portugal e decidiu vir para o Brasil. Todos eles – e centenas de milhares de outras pessoas, perdidas no tempo – não tinham perspectivas em seus países de origem e aceitaram desafiar o futuro. Esse tem sido, e continua a ser, o drama da emigração. Será que um dia isso vai mudar, de fato, e poderemos ter assegurado o sagrado direito de ir e vir, livremente, vivendo onde queremos, sem que tal ato represente o desespero de quem perdeu, de vez, toda a esperança?