[[legacy_image_334241]] No morro, Esmeralda ostentava seu porte de rainha. Tudo nela chamava atenção. O corpo era escultural. Dos pés à cabeça seria impossível encontrar um defeito. Olhos de caramelo adornavam seu rosto lindo. A boca sensual insinuava desejos inconfessáveis. Pernas bem torneadas completavam o conjunto. Enfim, suas formas invejáveis homenageavam a perfeição. Quando ela subia ou descia o morro, os rapazes enlouqueciam de desejo e esperança. À noite iam dormir pensando nela. Um deles, mais ousado, compôs um samba em sua homenagem. Mas todos sabiam que conquistá-la era impossível. Esmeralda, com tudo que a vida lhe deu de presente, tinha um dono e senhor: Luizinho do Pagode. Os dois entretinham um amor sincero e profundo, iniciado em uma roda de samba no alto do morro. Foi impossível resistir àquela mulata de mil talheres, gingando faceira e dançando samba de pé no chão. Esse amor cresceu com juras de união eterna. E nada parecia ameaçar a ligação inquebrantável. Quando o Carnaval chegou, eles já estavam de casamento marcado. Como na rotina do cotidiano, na avenida o casal também ficava muito próximo. Ele, com um apito estridente, liderava a bateria tirando dela acordes harmoniosos. Ela, alguns metros à frente, exibia no asfalto o feitiço e os passos aprendidos desde a infância. Era a rainha da bateria. Rainha autêntica, escolhida na comunidade. Não as falsas rainhas que se infiltram nas escolas de samba pelo brilho na TV, na música ou nas passarelas. O ciúme nunca existiu entre eles. Afinal, a força de uma fidelidade absoluta garantia a tranquilidade de ambos. Era o melhor dos mundos. Mas as tentações estavam à espreita, na tentativa de quebrar esses fortes grilhões. Em torno de Esmeralda sambavam cinco passistas. E um deles chamou a atenção da deusa. O primeiro impulso dela foi expulsar para longe o pecado da infidelidade no olhar. O simples pensamento de que aquele moço lhe despertava curiosidade a inundou de culpa. Julgou aquela simpatia um arroubo inocente e passageiro. Só que o olhar cobiçoso e insistente do rapaz foi abrindo uma fenda na determinação da sambista. O demônio soprava ao seu ouvido: “Por que não?” Ela respondia para si e para o capeta: “Porque tenho dono e sou mulher de um homem só. Ao qual entreguei meu coração e minha virgindade”. Tanta firmeza ia perdendo pontos preciosos à medida que o desfile avançava. A incerteza parecia ameaçar sua cidadela até então inexpugnável. A troca de olhares famintos com o passista fez Esmeralda capitular. Correta, como sempre, dias depois contou a Luizinho que seu coração fraquejara. E que ia mudar de barraco. Se fosse um espírito fraco e violento, ele chamaria para vingança um revólver ou uma arma branca. Mas era de paz e sabia perder. Por isso, mesmo devastado pelo sofrimento impensável, expôs sua tristeza em uma lágrima e uma frase. A lágrima rolou pelo rosto. A frase ecoou pelo morro: “Vá entender as mulheres!”