[[legacy_image_295352]] No famoso discurso de Gettysburg, Abraham Lincoln define a democracia como o governo do povo, para o povo e pelo povo. Com isto, entendeu-se o regime democrático como aquele que melhor refletiria os anseios populares. No entanto, como sempre, a definição daquilo que constitui o anseio popular ficou extremamente subjetivo, particularmente atrelado aos interesses daqueles que, supostamente, deveriam representar o desejo da maioria em razão da sua escolha. Se questionado a qualquer agente político quais são os anseios do povo, as respostas serão as mais variáveis possíveis. Se a base política é um grupo religioso, certamente o eleito entenderá os anseios do povo como reflexo daquela parcela do eleitorado. Se a base for um assunto identitário, provavelmente será a plataforma sobre a qual entenderá os anseios do povo. Mas a pergunta fundamental é: e quais são, de fato, os anseios do povo? A China, neste sentido, com seu regime que o Ocidente sempre critica, conseguiu ao longo das últimas cinco décadas compreender quais são os anseios do povo: tranquilidade, estabilidade e prosperidade. Estes três vetores têm sido responsáveis pela retirada de mais de 800 milhões de pessoas da pobreza e estimulado o país a alcançar um nível diferenciado de desenvolvimento econômico. A nação que tinha uma renda per capita dez vezes menor que a brasileira, em 1978, hoje tem o dobro da renda per capita atual do Brasil. O país que via no Brasil grandes avanços tecnológicos e importava carros brasileiros, hoje é uma fortaleza tecnológica e caminha rapidamente para assumir a posição de maior produtora mundial de veículos com inovação de ponta, particularmente no segmento de carros elétricos. Nem tudo são flores na China. O país enfrenta as dificuldades resultantes da longa pandemia e das medidas implementadas que – contrariamente ao Ocidente – lograram impedir que a covid-19 levasse milhões à morte, e da Guerra na Ucrânia que faz com que os europeus – até recentemente os principais parceiros econômicos da China – adquiram energia de outras fontes muito mais caras do que Moscou lhe fornecia, reduzindo-lhes renda e impondo uma recessão que será sentida nos próximos anos no Velho Continente. Diante disso, o governo chinês emitiu recentemente um documento chamado “Pareceres sobre a continuação da flexibilização do ambiente de negócios para o investimento estrangeiro e o aumento da atração do investimento estrangeiro”, com 24 políticas em seis áreas para evidenciar o compromisso e determinação do país para obter resultados mais efetivos e atender os anseios da população de tranquilidade, estabilidade e prosperidade. O objetivo é fortalecer o relacionamento da China com investidores estrangeiros, para atrair executivos estrangeiros, talentos em alta tecnologia e suas famílias para entrarem e saírem no país asiático, além da disponibilização de recursos públicos para centros de pesquisa e desenvolvimento e assegurar o livre compartilhamento do conhecimento. E, dentre as medidas listadas, ouvir as opiniões dos investidores estrangeiros para corrigirem os rumos, além de permitir-lhes a maior flexibilidade possível para operar no país. Pretende-se, além de atrair mais investimentos e aumentar o crescimento, utilizar do investimento estrangeiro para melhorar as áreas do país carentes de maior desenvolvimento, principalmente pelo fortalecimento da competitividade e o desenvolvimento regional. Se Lincoln levasse em conta a questão da melhoria efetiva da qualidade de vida do povo, certamente estaria mais preocupado com o Ocidente. Afinal, quais das “democracias ocidentais” estão, efetivamente, melhorando a qualidade de vida do povo?