(Pixabay) Leio Filosofia sem método rígido, busco interpretar os mestres para fortalecer a arte que busca novos significados. Não largo Epicuro, os cínicos e Deleuze, ainda que não deixe de tentar escalar as montanhas de Kant e Hegel. Não sei por qual motivo Filosofia ainda mete medo. Sinto-a gozosamente, fruição que dá-me instrumentos para aprofundar novas percepções, tirar o pó dos velhos conceitos. Nesse janeiro, o mundo comemora o centenário de Gilles Deleuze. Quem melhor pode decifrar o que nos angustia no século de todas as viradas? “As pessoas fortes não são as que ocupam o outro, é a fronteira que é potente (...) ver as fronteiras, isto é, fazer ver o imperceptível”. Me repugnou sempre qualquer ortodoxia, as conceituais são as mais escravizantes. Com Deleuze, entendi o cinema de Godard, o gênio de Proust, cultivar em Spinoza o supremo instrumento de apreensão do mundo. Deleuze dizia: “A Filosofia nunca esteve reservada aos professores de Filosofia”. Como encontramos Deleuze na prosa de Clarice Lispector e na poesia de Orides Fontela! Quantos afetos espreitamos nas obras de Paul Klee e seus rizomas, devires, máquinas desejantes deleuzianas! A literatura para Deleuze é tão força de delírio, conjunto de intensidades, fulgores, provocações, uma ética com estética poetizando a vida como quem tateia infinitos. Tratar a escrita, a criação, como um fluxo, não como um código inalcançável. Uso como lema pessoal sua prescrição: “Criar é resistir”. E é mais que resistir, como dizia Zé Celso, é re-existir. Sair fora da caixinha parece ter sido a adaptação popular brasileira para não ‘sujeitar-se’ a padrões. Deleuze dizia ser a poesia mais poderosa que a filosofia: imagem-pura, quebra de sintaxe, significado na veia da sensação. Até os anos 90, Deleuze era o ‘must’ das citações da cátedra, sem virar pop, felizmente. Ele se associou de vez ao esforço de artistas para influenciar uma sociedade cansada de imaginar. Seus seminários abertos são delícia no YouTube, mas é preciso lê-lo sem temor – o que não combinaria com sua subversão. “O verdadeiro charme das pessoas reside nos seus traços de loucura”. Não é o que destoa dos caretas a originalidade, que nos brilha os olhos além da mesmice? Quer começar a conhecer esse tabuleiro de intermináveis jogadas? Leia Conversações, em que Deleuze nos diz do desejo como motriz para o pensamento feito invenção. *Flávio Viegas Amoreira. Escritor, membro das Academias de Letras de Santos e Praia Grande