[[legacy_image_256952]] Um episódio aparentemente banal marcou trajetória de lutas e reconhecimento da jornalista Glória Maria. Numa reportagem de Natal, indo a campo observar o movimento no Centro do Rio, ela se depara com um ser de exceção espreitando placidamente as vitrines: era o poeta maior Carlos Drummond de Andrade. Hoje, não sei se reconheceriam Augusto de Campos na Paulista ou Conceição Evaristo em BH, não tanto por inépcia jornalística, mas pela falta de prestígio da literatura de invenção na burguesia e entre os formandos sem lustro de cultura. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! O mercado venceu sobre os dons do espírito e a poesia é o ponto supremo do cultivo dele: o espírito não mediocrizado. Glória Maria era pura curiosidade e vai direto ao ponto em que os poetas são experts: o estado do mundo. A matéria-prima do poeta é a vida na sua amplitude, as causas que se destacam do passageiro, mesmo auscultando do prosaico as epifanias, insights, pequenos milagres que extrai do prosaico, disseca do vulgo. O espantoso não está contido no invisível, é o visível mal percebido que revela todo encantamento. Poeta é farejador de encantos, as ruas são os leitos dadivosos onde extrai o ouro do seu mister alquímico de trazer à luz o que restaria inobservado e opaco. Empunhando um aperitivo num recôndito bar de esquina ou caminhando a rastrear o rumo das nuvens, poetas desde os gregos são peripatéticos: aquele que pensa profundo enquanto gasta o calçado. Um colhedor de inspiração, eremita misturado ao movimento urbano. Nessa aparente quietude, nascem os retratos do seu tempo, a identidade revelada de sua gente, a interpretação do instante que passaria desatento aos de vida prática. Fico a matutar onde viceja hoje o poder da poesia, esse “inutensílio” que dá gosto e ressignifica mesmo que não se ache à venda com preço fixo estampado nos anúncios de coisas que nos cegam. Quedo ruminando quem nunca teve a ventura de ler Fernando Pessoa... Tabacaria é uma explicação em versos do que seja nossa existência. Nunca leram? Ledes o Livro do Desassossego e terás companhia em qualquer ilha que inventes para se socorrer do desespero de toda gente. Incrível que toda poesia celeste de Bach possa ser ouvida no YouTube, toda poética das cores de Miró pesquisada nas Wikipédias, todo versos miraculosos de Manoel de Barros estejam à disposição de um toque de teclado e legiões de perdidos sigam bestializados pelo tatibitati néscio do TikTok! A poesia adensa, transforma, sutiliza qualquer criatura. Caberia aos municípios políticas eficazes de introduzir a literatura transformadora na grade fria dos currículos ultraespecializados. Pululam workshops sobre tudo, da tatuagem aos esportes radicais, do audiovisual aos cursos de moda, mas onde está a iniciação à escrita criativa? Onde se encontram as contações de estórias? Onde há os mediadores de leitura e orientadores de textos para tal e tal situação de vossas vidas? A tecnologia, ao invés de tornar obsoleto o raciocínio abstrato e a interpretação analítica, vai exigir muito mais argúcia e sensibilidade para nos distinguir da padronização advinda das máquinas. A começar de minha terra: dá a conhecer o José Bonifácio poeta, reedita Vicente de Carvalho, adota Martins Fontes, um manancial de bondade militante. Percebe-se que a pequenina Coreia do Sul virou potência com tecnologia associada à arte.