Muito tempo antes da pandemia, a cidade era um mar de acontecimentos louváveis noticiados na tevê e nos jornais. A artrose ainda não mostrara suas garras, deixando os joelhos em perfeitas condições para flexionarem, distenderem e dar agilidade aos meus passos. Assim, tive o privilégio de perceber o que era a dramaturgia com Renato Di Renzo graças à parceria da ONG TamTam com José Virgílio, do Instituto Arte no Dique! Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! “Refavela, Refazendo o Sentido” é fruto desse tempo abençoado, quando artistas e artesãos estudaram o universo de Gilberto Gil, músicas, A refavela como é tão bela, ó... O exílio em Londres e tudo mais. Figurinos e cenários no (re)aproveitamento de roupas, caixas, madeiras descartadas, papéis coloridos (re)florescendo. Os atores do Zé chegavam no caminhão da padaria, conduzido pelo padeiro, que fascinado durante a troca de experiências, quis e fez parte do elenco. Nossos domingos foram de eterna primavera, horas de compartilhar tudo, saberes e não saberes, especialmente as experiências de cada um, vida arrastada desde o Norte, desde o Nordeste, puxada pelo sonho de viver melhor. A imaginação é mãe da esperança e a travessia aconteceu, entre caminhos tortuosos, trilhas ásperas de pés sangrando tatuando as pedras, tingindo o fio de água nos leitos dos rios... Ah, quantos telhados desabaram, não é, Zeíres, nossa atriz principal? A vida do jeito que é, representada nos objetos cênicos, lamparina – um fio de luz basta para quem não conhece a eletricidade –, mas a alegria acontece, dádiva natural aos que se contentam com pouco, quase nada, pensamos nós, moradores sob o teto firme de casas e apartamentos confortáveis. Casa de Zeíres, não é barraco... Num é, sinhô, meu sinhô! As panelas brilham mais sem Bom Bril, areadas com a força e o segredo de quem nasceu para brilhar. A comida servida com o esmero dos simples e o sabor do afeto, da acolhida... Tudo me assoma à memória ao ler no jornal: “incêndio no Caminho de São Sebastião!” Os barracos, alguns destruídos, outros de pernas para o ar, famílias encaminhadas para abrigos. Outra vez, tudo perdido. No constante (re)começar o giro da vida fora dos trilhos: geladeira, fogão, sofá, ainda em débito... Vassuncê entendeu, seu moço? Bombeiros apagam o fogo, mas em dias sem incêndio, a água do manguezal arrasta bonecas de pano e de carne e osso, meninas e meninos, filhos que não verão auroras nem alvoreceres, vítimas das pinguelas balançando a cada passo. Urubus sobrevoam... As amigas da (re)favela mandam notícias: o fogo chegou perto, mas não foram atingidas. No entanto, o medo continua, pois muitos perigos rondam as palafitas! Ouço o CD de Gil, ‘’A refavela revela o ambiente efervescente de uma cidade a cintilar... A refavela, a refavela, ó! Como é tão bela, como é tão bela, ó!’’ A esperança renasce: Gente foi feita para se cumprir. Gente foi feita para brilhar! *Regina Alonso. Escritora e membro das Academias Santista de Letras Casa de Martins Fontes e Vicentina de Letras, Artes e Ofícios.