() No Brasil de antigamente, cheio de santos e promessas, era comum dar às meninas o nome de Maria das Dores. Não era praga, era devoção. Um jeito de dizer a Deus: “Toma conta dela”. Na Espanha, virou Maria Dolores. Fico imaginando se um dia não se encontraram, Das Dores e Dolores, vizinhas de bairro. Das Dores, que alegria é essa? Viu passarinho verde é, mulher? Ah, Dolores, estou muito feliz só em ver você. Você irradia tanta alegria! Parece inverossímil, ou pelo menos engraçado, mas é bem provável que um encontro desse, com Das Dores e Dolores trocando afeto na calçada, já tenha acontecido nesse Brasilsão de meu Deus. E quem disse que nome triste não pode carregar felicidade? Uma delas, aliás, ganhou vida na ficção, transformando-se na inesquecível Mãe Dolores, figura que marcou para sempre nossa dramaturgia. Brilhou primeiro no rádio e, anos depois, ressurgiu na TV Tupi, na década de 1960, na antológica novela O Direito de Nascer. O Brasil, literalmente, parava para acompanhar a trama. Dolores, mãe adotiva de Albertinho Limonta, personagem central da história, foi interpretada por Isaura Bruno, uma das primeiras atrizes negras a conquistar grande destaque na televisão brasileira, rompendo barreiras e deixando seu nome gravado na nossa memória afetiva do país. Pois Mãe Dolores fugiu com Albertinho ainda bebê para protegê-lo do próprio avô, que queria mata-lo por ser filho bastardo. Tornou-se, assim, símbolo do amor materno e, imaginem, as lágrimas rolaram. Albertinho foi interpretado, na primeira versão, pelo galã Amilton Fernandes e, mais tarde, por Rubens de Falco, verdadeiras dores de cabeça para os pais das moçoilas que suspiravam diante da TV em preto e branco. No fim das contas, Das Dores não é só nome de gente, pode ser também de sintoma, fofoca ou romance mal resolvido. Aparecendo como substantivo, nem sempre diz o que realmente quer dizer. Dor de cabeça pode ser enxaqueca ou aquele cunhado que pede dinheiro emprestado. Dor de cotovelo? Às vezes, é tendinite; na maioria das vezes, ciúme, inveja ou ressentimento. Tem ainda a mais falada de todas, dita à boca pequena, embora ninguém admita: a dor de corno. Essa, sim, silenciosa, mas todo mundo conhece alguém que já teve. No fundo, todos somos um pouco Das Dores. A gente sofre, resmunga, mas sorri para o vizinho na calçada; e, mesmo com dor aqui e dor ali, seguimos com aquele brilho nos olhos que finge não doer nada. *Marcio Aurelio Soares. Médico