(Imagem ilustrativa/Pixabay) Cultura é tudo! Diz-se de modo leviano. Cuidado, se Cultura é tudo, seu valor transformador se esvai. Não vão me dizer que jogos eletrônicos ou reality shows são veículos de pensamento e arte de evolução crítica ou reflexiva profunda. Economia criativa é Cultura? Cuidado para não confundir artesania, habilidades do espírito de lastro ancestral com bugiganga ou 1,99. A economia criativa pode ser um aspecto lateral poderoso de sobrevivência deste arco tão amplo, mas não originalmente pecuniário que é a Cultura traduzida em alma comunitária que favorece o indivíduo e seu talento. O artesanato indígena é um exemplo perfeito de criatividade ancestral belíssima que ganha o mundo sem ter a preocupação primeira de ser economia. Parece sutil demais? Simples: Cultura é o que se faz por necessidade do espírito sem objetivo monetário imediato que pelo seu potencial acaba virando ganha-pão. Exemplos? O bordado da Ilha da Madeira, a culinária caiçara, o samba que se tornou a industria de massa que é o Carnaval, um curta-metragem caseiro que gera um cineasta, uma oficina de redação que revela um roteirista ou artista de história em quadrinhos. As prefeituras de todo Brasil estão viciadas em entretenimento sem resultado permanente para seu povo. Um show milionário para multidões entorpecidas pelo prazer fugaz não muda nada, enquanto uma simples aula de violão pode salvar gerações de jovens carentes de tudo. Quando vejo talentosas bailarinas ou músicos pedindo ajuda nos sinaleiros, choro por dentro pelo tanto gasto com falso pão e circo. Entretenimento importa? Sim! Mas não coloque isso na conta de Cultura. Misturar lazer ou industria de massa com Cultura e Arte faz ruborizar qualquer agente criativo genuíno. Quando se pensa em Saúde se ouve médicos, na Educação, pedagogos. Por que os artistas reais que penam para mudar o mundo não são ouvidos para mudar sua terra? Arte é o que faz pensar, subverte, humaniza, faz sentir profundo com muito pouco para fazer tanto. Certa vez, um grande escritor francês amigo perguntou-me por qual motivo no Brasil não existe um centro cultural em cada bairro. O que me pareceu óbvio aqui soa tão raro. Pontos de Cultura e cursos formativos em Arte em qualquer aldeia francesa tiraram milhares de jovens da marginalidade. Aqui, no país dos nem-nem (nem trabalham nem estudam), quanto uma câmera na mão ou um aula de percussão poderia ajudar mudar este quadro? Recordamos que François Truffaut, seu maior cineasta, era um contraventor sem rumo e o gênio da literatura Jean Genet cresceu ladrão condenado e foi salvo por seus estupendos romances e peças. O setor cultural-criativo representa 4% do PIB nacional, bem acima da indústria automotiva. De cada US\$ 1 investido em Cultura, US\$ 2,5 voltam como potencial humano regenerado. O que esperar para tratar Cultura como prioridade não-poluente, civilizacional e capaz de salvar milhares do desalento e falta de perspectivas? Um violino na mão nas periferias é capaz de tirar dezenas de AR-15 do horizonte. Papel, lápis e neurônios criativos são o que basta para dar objetivos aos perdidos no ócio meliante. Não se é artista por hobby! Gênios estão se perdendo nas quebradas por ausência de políticas públicas direcionadas capazes de revelar artistas perdidos no fogo cruzado da marginalidade.