[[legacy_image_287661]] Evoluímos, ao menos formalmente, na consagração dos direitos humanos inalienáveis dos cidadãos. Todos reconhecemos saúde, educação, trabalho como direitos constitucionalmente garantidos. Mas ainda grandes setores da sociedade não atinam para o direito à cultura, a arte, o cultivo da leitura como direitos tão essenciais quanto os referidos de primeira necessidade. Para alguns, é até absurda a defesa por nós, poetas e intelectuais, de valores considerados supérfluos diante de comer, pagar contas, consumir. No momento em que celebram 40 anos de estrada inevitável, recorrer aos Titãs com o refrão de Arnaldo Antunes: “A gente não quer só comida/a gente quer comida, diversão e arte”. É exatamente neste momento em que todos paradigmas de criação são desafiados pela Inteligência Artificial que devemos reafirmar nossa primazia como seres lúdicos, inventivos, iluminadores do nosso destino. Até no cárcere gênios nos legaram obras-primas porque a reflexão e imaginação não perpetraram celas de confinamento ao sonho. Meu ideal seria que todos tivessem mesmo interesse por Shakespeare, Dostoiévski, Guimarães Rosa e Clarice Lispector. Se utópico, ao menos propiciar a muitos mais além de mim o direito à literatura tem sido minha missão, além de criar ela mesma, literatura, por meus poemas, contos e romances. Quantas moradas, cômodos recônditos, mansardas de encantamentos não contêm os palácios calorosos da Literatura? Não foi Mário Quintana que disse “quem faz um poema abre uma janela!?” Quantas janelas podem ser ventiladas por um livro doado, uma oficina de criação nas periferias, a apreciação de um texto de um escritor novato. O Brasil talvez seja dos poucos países que têm em sua Constituição um artigo expresso sobre direito cultural: “O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará a valorização e a difusão das manifestações culturais”. Artistas tidos desregrados, cumprimos fielmente a magna carta ao propiciar arte para todos. Não é, Milton, que o poeta tem que ir aonde o povo está? E não venha me dizer que o povo não quer biscoito fino, Shakespeare escrevia para o povão, que quando tem acesso bem enfocado até a mais hermética obra pode ser assimilada. Levar e trazer culturas saídas de todas as formas de expressão é retroalimentação de criadores e fruidores. Mestre Antonio Cândido nos deixou um documento insuperável para o tema: “O direito à literatura”, onde discorre: “...será que pensam que o seu semelhante pobre teria direito a ler Dostoiévski ou ouvir quartetos de Beethoven?”, ao que acrescento o direito de ouvir Villa-Lobos, Cartola, ocupar as praças com suas batalhas de rimas, os ‘slams’, seus grafites, seus versos de resistência e superação? Pois a partir deste 7 de agosto promovemos mais uma Festa do Livro aberta a saraus, oficinas, apresentações musicais, feira de livros, porque arte puxa arte e dá aos cidadãos espírito crítico, engajamento, combate à alienação e envolve num círculo virtuoso de participação plena na comunidade. Inspirados por três mulheres raras homenageadas: Alzira Rufino, Ivani Ribeiro em seu centenário e Maria Valéria Resende.