O suicídio entre médicos é uma ferida silenciosa que insiste em se abrir no coração da saúde. Em todo o mundo, médicas apresentam risco 76% maior de morrer por suicídio em comparação à população geral. Nos Estados Unidos, mais de 400 médicos tiram a própria vida a cada ano. Por trás dos números, há um alerta: os profissionais que dedicam a vida a salvar outras tantas estão sucumbindo ao peso de um sistema que os exaure. No Brasil, um estudo nacional com mais de 4 mil médicos expôs dados alarmantes: 8,8% relataram planos de suicídio e 3,2% já haviam tentado. Entre os que vivem exaustão emocional diária, o risco dispara. Médicos extremamente insatisfeitos chegam a uma prevalência de 38,3% de planos ou tentativas, contra apenas 2,8% entre os extremamente satisfeitos. A mortalidade por suicídio na categoria é estimada em 3,5 por 10 mil profissionais, dezenas de vezes maior que a taxa da população geral. Embora ainda não haja dados regionais consolidados apenas para médicos, a mortalidade geral por suicídio no país oferece pistas. São Paulo e Minas Gerais lideram em números absolutos de casos, este último com mais de 2 mil suicídios em 2024 (9,41 mortes por 100 mil habitantes). Considerando que são estados com grande concentração de médicos, a sobreposição dos cenários é alarmante. O Brasil tem avançado em políticas de prevenção para a população, com a Lei 13.819/2019, a ampliação da Rede de Atenção Psicossocial, o apoio fundamental do CVV e as campanhas do Setembro Amarelo. Experiências regionais, como a rede de prevenção em Anastácio (MS), mostram que é possível agir de forma concreta e eficaz. Mas falta coragem para olhar para dentro da própria medicina. Não há, hoje, programas específicos de prevenção do suicídio voltados aos médicos. A categoria continua dependente de iniciativas gerais, sem políticas que reconheçam sua vulnerabilidade. O Projeto de Lei 2.086/2021, que prevê ações de qualidade de vida para profissionais do SUS, segue engavetado. É hora de agir. Cuidar de quem cuida não pode ser slogan, precisa ser compromisso. Ignorar os sinais é condenar médicos a continuar padecendo em silêncio. E, nesse silêncio, todos nós perdemos. *Elói Guilherme P. Moccellin. Presidente do Sindicato dos Médicos de Santos, São Vicente, Cubatão, Guarujá e Praia Grande (Sindimed)