(Alexsander Ferraz/AT) Nos últimos dias, Cubatão voltou aos holofotes após uma fala da deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP) na Câmara dos Deputados. Em discurso contrário ao chamado PL da Devastação - projeto que busca flexibilizar o licenciamento ambiental -, a parlamentar usou a cidade como exemplo do que pode ocorrer quando se abrem as porteiras para o desmonte da legislação ambiental. Errou no tempo verbal ao se referir ao passado trágico da cidade como se ainda fosse atual. Não, não somos mais o Vale da Morte. A referência não corresponde à nossa realidade, construída com muita luta pela população local. Cubatão é hoje um símbolo da luta ambiental no Brasil, por ter enfrentado uma tragédia ecológica sem precedentes e conseguido importantes avanços na recuperação ambiental. Mas afirmar que “está tudo resolvido” é tão equivocado quanto dizer que nada mudou. A verdade está no meio do caminho: seguimos enfrentando sérios desafios, agora não mais apenas das grandes indústrias, mas também da ocupação urbana desordenada, da falta de saneamento básico e do descarte inadequado de resíduos. Foi constrangedor ver tanta gente - inclusive do nosso campo político - disputando espaço para “lacrar” nas redes com indignação seletiva. Enquanto se apressaram para rebater a deputada, silenciaram diante do voto de deputados da nossa própria região favoráveis ao projeto que ela denunciava. Se é para defender Cubatão, que seja com coerência. Defender Cubatão de estigmas injustos é essencial, mas é ainda mais urgente defendê-la de ameaças reais, como o “navio-bomba” e a Cava Subaquática, instalados no estuário da região. Uma dessas novas ameaças atende pelo nome de condomínio logístico - um projeto da Autoridade Portuária de Santos para construir um pátio de caminhões na Ilha do Tatu, área de preservação ambiental localizada em meio a cinco bairros residenciais de Cubatão. A obra prevê pavimentação, substituindo vegetação nativa de mangue e restinga por concreto, e agravando com isso alagamentos, poluição do ar e sonora, além de afetar diretamente a vida de milhares de moradores. Onde estão as vozes que bradaram contra a deputada? Por que não se levantam com a mesma firmeza, quando o risco é real e próximo? A defesa do meio ambiente não pode ser usada como arma política só quando convém. Cubatão merece ser defendida com memória, responsabilidade e compromisso com o futuro. Não basta rebater discursos fora de lugar. É preciso dizer não à destruição silenciosa em curso, que ficará sem controle algum com a entrada em vigor do PL da Devastação. Por isso, veta Lula! Ao lado dos que lutam, como a deputada em questão, vamos defender a preservação, o futuro, e a dignidade de quem vive aqui. *Paula Ravanelli Losada. Advogada e procuradora municipal de Cubatão