É uma forma de garantir mais segurança aos usuários (Marcelo Camargo/Agência Brasil) Para usar os serviços de um Centro Médico da cidade, era necessário passar por um balcão onde as atendentes pediam nossos números e, em seguida, entregavam um papel com os nossos dados e um cartão para liberar uma catraca e acessar os elevadores. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Certa ocasião, tudo mudou. Um atendente cadastrava o rosto no computador e, voilà, a catraca se abria para permitir o acesso. A tecnologia mostra sua face prática, ágil e sustentável, mas ao mesmo tempo inquietante. A praticidade está no acesso instantâneo, sem digitações, com ativação automática. Já as preocupações são inúmeras. Vigilância em massa, fim do anonimato, erros de identificação, rastreamento comercial, coleta invisível e a eliminação de profissões tradicionais. Eu sei, isso já é um fato, porém até onde iremos? Como será o futuro? A evolução é natural, cruel e efêmera. Não quero ser obliterado. Espero permanecer com aquilo que não pode ser acelerado, como o peso de um olhar, a hesitação antes de uma escolha, a imperfeição de um abraço. Imagino que ainda levará algumas gerações para o papel e os livros impressos se extinguirem, engolidos pela correria das superfícies digitais. A velocidade é quase a da luz, e possivelmente daí o motivo de já não sabermos mais onde guardamos o instante. Passamos os dedos pelas telas, deslizamos imagens, saltamos de uma notícia e de uma conversa para outra como se a vida pudesse ser percorrida com o mesmo gesto. Tudo chega e desaparece depressa, quase nada permanece tempo suficiente para criar raízes na memória. Gosto de imaginar que haverá alguém à procura, em alguma velha estante, de um livro amarelado pelo tempo, abrindo suas páginas e encontrando ali, não apenas palavras, e sim o silêncio do intervalo entre uma página e a frase seguinte, quando somos obrigados a parar e refletir. Esse é o maior luxo oferecido pelo papel... a possibilidade de desacelerar. Recuso-me a acreditar que o romance será desprovido de sentimentos, sem as estórias românticas dos livros, contadas por grandes escritores. Posso soar fatalista, porém temo que os autômatos assumam as expressões mais refinadas da humanidade. Lembrei-me de José Saramago, que nos idos de 1997 avisou que sua geração seria a última de uma civilização conhecida, restando a nós o papel de cobaias em uma transição cega para o desconhecido. Ele não conheceu a inteligência artificial que hoje nos dita o ritmo, embora tenha adivinhado o seu sintoma mais doloroso, a urgência de novos valores e o risco iminente de soterrarmos o respeito pelo outro sob o pretexto da modernidade. No amanhã que nos espreita, onde novos dispositivos reinarão e velhas profissões desaparecerão, talvez o papel e os livros sejam engolidos pelo ímpeto dos dados intangíveis. Contudo, eu ainda permanecerei humano. Jardel Pacheco. Professor, escritor, diretor de Relações Públicas da Contemporânea – Projetos Culturais, membro da Academia Vicentina de Letras, Artes e Ofícios.