(Freepik) Antigamente, perder dinheiro era quase uma tradição popular; principalmente em festa grande, tipo Carnaval. Bastava juntar três foliões, um vendedor de latinha e um sujeito distraído para que alguém saísse no prejuízo. O dinheiro sumia entre um pagamento apressado e um troco mal conferido; evaporava com a mesma facilidade da dignidade às quatro da manhã. Eu mesmo sou testemunha desse período fértil da economia informal do chão; na véspera de um festejo, quando o Real tinha acabado de nascer e ainda inspirava confiança patriótica, encontrei 100 reais perdidos. Cem reais; naquela época era quase um consórcio contemplado. Caminhei pela rua com a sensação de ter sido escolhido pelo Banco Central. Em jogo de futebol também havia esse romantismo monetário; na entrada do estádio encontrei uma moeda de um real. No intervalo apareceram mais dez reais, assim, generosos, à minha espera. Resultado: comprei um refrigerante e duas garrafas de água e ainda me senti um investidor visionário. O futebol podia até terminar em zero a zero, mas minha bolsa de valores fechava sempre em alta. Este ano, em Guarapari (ES), a modernidade resolveu dar as caras e acabar com a farra das notas perdidas. O locutor oficial anunciou a perda de uma carteira com documentos; minutos depois entregaram no palanque um cartão de crédito, um par de óculos e uma bolsinha com documentos, sem os cartões. Tudo lindo, tudo bonito; eficiência quase suíça. Na noite seguinte houve novos achados; dinheiro que é bom, nada. A culpa é do Pix e dos cartões de débito e crédito; o dinheiro virou entidade virtual, espírito sem corpo, alma penada que não cai mais da pochete do folião. Hoje ninguém perde cédula; perde sinal de internet, perde senha, perde a paciência. Nossos avós carregavam dinheiro em carteiras robustas, algumas envoltas por sacolinhas de plástico presas com elástico; aquilo sim era tecnologia de segurança. Hoje, não: o que se perde é a dignidade votando em candidatos sem noção. Dinheiro, esse não se perde mais. Nem mesmo na praia de Guarapari os detectoristas, esses caçadores de tesouros munidos de detector de metais e peneira chamada scoop, encontram moedas como antigamente. No máximo, aparecem alianças, anéis, óculos e relógios; as alianças, sobretudo, pertencentes aos que querem se passar por solteiros e as prendem em nós estratégicos nas sungas ou biquínis. O mundo mudou; o dinheiro ficou invisível e a gente ficou nostálgico. Porque havia algo de poético em achar uma nota amassada no chão; era como se o destino dissesse “vai, meu filho, hoje a rodada é por minha conta”. Hoje, o destino manda um QR code; e não tem a menor graça. Pelo menos a mim, que não achei nada neste Carnaval. *Gregório José. Jornalista, radialista e filósofo