“Penso que estamos cegos, cegos que veem, cegos que, vendo, não veem”. José Saramago (Ensaio sobre a Cegueira, 1995) A cegueira branca e pastosa, que trata o livro de Saramago, na verdade é uma representação alegórica que revela a indiferença humana frente a sucessivas crises, nas últimas décadas. Ele comenta sobre a notável obra: “É um livro francamente terrível, quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo”. Trata-se de um livro violento com o propósito essencial de alertar para uma cegueira que deforma, massifica e embrutece a sociedade humana. E a faz sofrer! Sobre a crise climática, que revela o nível de devastação e sofrimentos, na tragédia do Rio Grande do Sul, é bom lembrar que em 1987, o documento “Nosso Futuro Comum”, elaborado pela Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, já apresentava, com surpreendente precisão, o que vemos no Sul e os prognósticos catastróficos para o que virá. A referida comissão, sob a coordenação da primeira ministra da Noruega Gro Harlem Brundtland, durante três anos, com substancioso aporte de pesquisas e análises, levantou o estado do mundo e projetou cenários possíveis e prováveis para as décadas seguintes, no plano da sustentabilidade. No capítulo que trata sobre Energia, com o título “Lidando com a mudança climática”, o citado documento trata do aumento de CO2 na atmosfera devido à queima de combustíveis fósseis, à retirada de cobertura vegetal, principalmente nas florestas, e ao acentuado crescimento urbano-industrial. Em nível de alerta, completa que a mudança climática deve ser considerada uma “probabilidade plausível e grave”. No escopo da publicação são projetados cenários para 2030. Destaca-se que, até lá, a elevação das temperaturas médias terrestres ficará entre 1,5 e 4,5 graus. Subjacente a esta faixa de aquecimento, a Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, constituída em 1987 para avaliar o estado do mundo, calculou um aumento do nível do mar entre 25 e 140 centímetros. É Santos e outras cidades litorâneas, alagadas! Nesta esteira de alertas sobre os desequilíbrios ambientais, mais recentemente, em fevereiro de 2007, cientistas do IPCC - Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, ligado às Nações Unidas, revelaram que são as atividades humanas as que contribuem, de forma significativa, com o aquecimento global. O resultado são mudanças severas em ambientes terrestres e marinhos. Nos anos seguintes parece que os desassossegos passaram e o interesse pelo assunto esfriou. Hoje, vendo as cenas que chegam do Rio Grande do Sul, com potencial de se estenderem pelo planeta, lembro-me da mensagem de José Saramago: “Nunca a sociedade precisou tanto de seres humanos desassossegados”.