A indústria dos golpes virtuais é provavelmente controlada pelo crime organizado, o que torna ainda mais importante enfrentá-la (Reprodução/Pixabay) A violência, segundo recente pesquisa Genial/Quest, é o principal problema do Brasil. As pessoas se sentem inseguras e ameaçadas diante da criminalidade, e muitos preconizam repressão forte aos bandidos, com polícia agindo com extremo vigor. Pode-se discutir se esse é o caminho. Vale destacar que a política de segurança no Estado de São Paulo, que segue e amplia essa ideia, é criticada e um dos motivos do aumento das avaliações ruim e péssimo do governador Tarcísio de Freitas, que passaram de 11% para 22% em dois anos. É lugar comum repetir que criminalidade se combate principalmente com inteligência. Nesse sentido, é importante chamar a atenção para um dos graves problemas de segurança que assolam o País: os crimes virtuais. Eles não ameaçam as pessoas com armas ou com agressões físicas. Mas estão por toda a parte, invadindo a vida dos indivíduos, principalmente por meio dos telefones celulares, mas também por notebooks ou computadores. Recebo, em média, cinco a seis ligações por dia, todas se dizendo de bancos ou instituições financeiras. Há uma compra suspeita na sua conta; aconteceu um lançamento estranho no seu cartão de crédito; sou do INSS e tenho informações importantes para transmitir-lhe. Desligo imediatamente, e bloqueio o número que fez a chamada. Inútil: os criminosos dispõem de mais e mais linhas que se sucedem nos contatos. E são extremamente convincentes nas argumentações, sempre calmos e tranquilos, buscando com paciência conquistar a confiança das vítimas. Recorro novamente a outra pesquisa, agora do Datafolha, de junho de 2024. Segundo ela, mais de 4,6 mil pessoas são alvo de tentativas de golpes financeiros por hora no Brasil, que é um dos principais alvos de ataques cibernéticos no mundo. O Instituto DataSenado, em parceria com o Nexus, levantou que os golpes digitais vitimaram 24% dos brasileiros em um ano. Pasmem: um em cada quatro habitantes sofreu essa violência, e São Paulo lidera o ranking nacional, com 30% dos casos. Não é possível ficar indiferente ou inerte diante dessa hecatombe. Trata-se de ameaça grave à população como um todo, atingindo pobres, classe média, ricos. Enfrentar esse problema não é simples ou trivial, e é preciso ação que envolva governos (de todos os níveis), Congresso, empresas, sociedade civil. É preciso criar mecanismos de bloqueio e controle, e aprimorar as investigações (que exigem equipamentos e tecnologia sofisticada). Deve envolver operadoras de telefonia e provedores de internet, e ir fundo nas investigações e apurações de responsabilidades. Afinal, um dos golpes mais comuns – a transferência de recursos via Pix – tem destinatário (ainda que laranja) e não é impossível rastrear o caminho percorrido pelo dinheiro até chegar às mãos dos criminosos. A indústria dos golpes virtuais é provavelmente controlada pelo crime organizado, o que torna ainda mais importante enfrentá-la e reduzir, de maneira efetiva, suas consequências. A população, que se horroriza com a violência cotidiana e clama por segurança, precisa exigir atenção aos crimes virtuais, que ameaçam, cada vez mais, todos os cidadãos brasileiros. * Engenheiro, cientista político, professor da Universidade Católica de Santos e responsável pela metodologia e RI do Instituto de Pesquisas A Tribuna (IPAT)