(Wilson Dias/Agência Brasil) O Carnaval é um momento de alegria coletiva: tem bloco infantil, fantasia, família na rua e memória boa sendo construída. Em meio à música alta, porém, cresce uma realidade silenciosa: crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2024 o Brasil tinha mais de 1,6 milhão de crianças e adolescentes, de 5 a 17 anos, nessa condição. Entre eles, 560 mil estavam nas piores formas de trabalho infantil, com maior risco à saúde e ao desenvolvimento. Os adolescentes de 16 e 17 anos concentram a maior proporção: 15,3% estavam expostos a essa violação. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! E o que o Carnaval tem a ver com isso? Grandes aglomerações ampliam a demanda por serviços rápidos e baratos: venda ambulante, catação de resíduos, guardadores de carro, entregas improvisadas, trabalho noturno. Forma-se um ambiente em que crianças ficam mais expostas e mais invisíveis. Há registros de que as notificações sobre trabalho infantil aumentam, em média, 38% no período de Carnaval, segundo referência ao Ministério Público do Trabalho e há alertas públicos de que, em carnavais passados, os registros cresceram quase 40%. E não se trata de “apenas um bico”. Trabalho infantil não é “ajuda”, não é “aprendizado” e não é “formação de caráter”: é violação de direitos e produz consequências que a sociedade paga por anos. Para crianças e adolescentes, os impactos são diretos e graves, incluindo risco físico real, como acidentes, cortes, atropelamentos, exaustão, insolação, desidratação e contato com vidro, metal e resíduos; maior risco de violência, como assédio, exploração, coerção e desaparecimentos em meio à multidão. Os impactos do trabalho infantil não recaem apenas sobre quem trabalha. Quando essa prática é normalizada, o padrão de proteção social é rebaixado, fortalece-se uma economia que troca direitos por conveniência e a rede de proteção se enfraquece, fazendo com que aquilo que passa despercebido se torne regra. Não comprar produtos ou serviços de crianças e adolescentes é essencial para pôr fim ao ciclo da exploração. Quem deseja ajudar deve procurar iniciativas seguras. Também é fundamental não oferecer trabalho ou bicos: organizadores de blocos, bares e eventos precisam tratar a contratação responsável como prioridade, com tolerância zero à mão de obra infantil. Além disso, ao identificar uma criança ou adolescente trabalhando, é necessário acionar a rede de proteção: o Disque 100 funciona 24 horas por dia, todos os dias, recebe denúncias anônimas e pode ser acessado por aplicativo, site ou Telegram. Criança no Carnaval é para brincar, não para trabalhar. Se você viu, não ignore. Se puder, não financie. E, se precisar, denuncie. *Victor Graça. Superintendente da Fundação Abrinq